Jornalista - Falamos agora com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov. Senhor ministro, bem-vindo ao Jornal da Press. Obrigado e bem-vindo ao Jornal dos Diplomatas.
Muito obrigado por se juntar a nós depois de uma semana muito significativa. Vamos entrar diretamente no estado destas conversações. O presidente Putin comprometeu-se com uma reunião a sós com o presidente Zelensky?
Lavrov - Bem, essas são especulações que estão a ser divulgadas, em primeiro lugar, pelo próprio senhor Zelensky e pelos seus apoiantes europeus. Isso não foi discutido em Anchorage. Foi levantado depois como algo algo um pouco improvisado, após a reunião em Washington entre o presidente Trump e os seus convidados. O presidente Putin recebeu uma chamada do presidente Trump após essa reunião e declarou claramente que estamos dispostos a continuar as negociações diretas entre a Rússia e a Ucrânia, que começaram em Istambul e já tiveram três rondas de conversações. E afirmou que reuniões ao mais alto nível, sobretudo entre os líderes da Rússia e da Ucrânia, devem ser cuidadosamente preparadas, pelo que o processo preparatório tem de estar concluído.
Para isso, sugerimos aumentar o nível das delegações que se irão reunir em Istambul para tratar de questões específicas que precisam de ser levadas à atenção dos presidentes Putin e Zelensky. Essas questões dizem respeito a matérias humanitárias, militares e políticas.
Na última vez que nos reunimos em Istambul, propusemos a criação de três grupos de trabalho, incluindo sobre questões políticas. Já passou mais de um mês e não houve resposta da Ucrânia. Quando o senhor Zelensky afirma que a prioridade imediata é uma reunião comigo, isso é basicamente um jogo - um jogo em que ele é muito bom, porque gosta de teatro em tudo o que faz. Não se preocupa com o conteúdo.
Não é por acaso que agora os ucranianos e os europeus que participaram na reunião em Washington tentaram distorcer o que foi discutido em Anchorage entre o presidente Trump e o presidente Putin, em particular no que respeita às garantias de segurança. Li alguns relatórios da Bloomberg ontem e hoje, segundo os quais as negociações entre os EUA e a Rússia sobre garantias de segurança para a Ucrânia terão sido interrompidas devido à exigência de Moscovo de incluir o princípio da segurança indivisível. Trata-se de um comentário muito relevante.
A segurança indivisível está consagrada em vários documentos adotados por consenso no âmbito da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), nomeadamente em Istambul, em 1999, e em Astana, em 2010. Este princípio estabelece que ninguém deve reforçar a sua segurança à custa da segurança dos outros. Nenhuma organização no espaço europeu pode reivindicar domínio em questões militares e políticas. E a NATO está precisamente a fazer o contrário.
Assim, quando somos acusados de interromper o princípio da segurança indivisível, o que está realmente em causa são as negociações entre os EUA, a Rússia e a Ucrânia. Isso significa que há quem admita querer uma segurança “indivisível”, mas construída contra a Rússia.
Essas discussões indicam claramente que alguns veem a segurança da Ucrânia como a única prioridade e estão dispostos a enviar forças de intervenção, forças ocupantes, para o território ucraniano, para conter a Rússia. Não é essa a abordagem correta. O presidente Putin e o presidente Trump discutiram garantias de segurança em Anchorage, e o presidente Putin recordou que, em abril de 2022, em Istambul, durante negociações iniciadas pela parte ucraniana pouco depois do início da operação militar, foram apresentados princípios para pôr fim à guerra.
Esses princípios incluíam a criação de um grupo de garantias composto pelos membros permanentes do Conselho de Segurança - Rússia, EUA, China, Reino Unido e França - bem como a Alemanha, a Turquia e outros países interessados. Essas garantias assegurariam a segurança da Ucrânia, que deveria ser neutra, não alinhada e não nuclear.
Jornalista - Senhor ministro, vamos regressar às garantias de segurança, mas quero insistir na ideia de uma reunião a sós entre Putin e Zelensky. Não é apenas Zelensky a afirmar isso: a Casa Branca diz que Putin disse a Trump que está disposto a encontrar-se cara a cara com Zelensky. Como pode afirmar que o processo de paz é sério se não pode dizer claramente se Putin está disposto a reunir-se com Zelensky?
Lavrov - Espero que quem acompanha a situação na Ucrânia siga os comentários do presidente Putin. Ele afirmou repetidamente que está disposto a reunir-se com o presidente Zelensky, e ontem, após a minha reunião com o ministro da Índia, voltei a dizê-lo. Mas essa reunião só faz sentido se tiver um resultado concreto. Encontrar-se com Zelensky apenas para mais uma encenação não é útil. Ele quer teatro, mas isso não resolve o problema.
Ele declarou publicamente que não discutirá território, desafiando o presidente Trump e outros responsáveis norte-americanos que defendem que a questão territorial tem de ser abordada. Disse também que ninguém o pode impedir de aderir à NATO, contrariando novamente o que foi dito por Trump e outros. Além disso, afirmou que não irá revogar legislação aprovada em 2019 que restringe os direitos da língua russa, da cultura russa, da educação russa, dos meios de comunicação russos e da Igreja Ortodoxa Ucraniana.
Quando diz que está pronto para se reunir apenas para aparecer no palco, a questão é: para quê? Se nos concentrarmos apenas em efeitos mediáticos, isso não é diplomacia.
O presidente Putin disse claramente que está disponível para se reunir, desde que haja uma agenda séria e bem preparada. Não existe, neste momento, qualquer reunião planeada. Kristen, peço desculpa, mas não está a ouvir. Não há qualquer reunião planeada, e não estou a contradizer isso. O que digo é que Putin está disposto a reunir-se com Zelensky quando houver uma agenda adequada - e essa agenda ainda não existe.
O presidente Trump apresentou vários pontos após Anchorage, alguns dos quais foram discutidos em Washington com Zelensky e líderes europeus. Ficou claro que existem princípios que Washington considera essenciais, incluindo não avançar para uma reunião sem preparação e abordar a questão territorial. Zelensky recusou tudo isso. Ele recusou até a revogação da legislação sobre a língua russa. Como é possível reunir com alguém que se apresenta como líder de um país que proíbe uma língua - uma língua que é, além disso, uma das línguas oficiais da ONU?
Em Israel, o árabe não é proibido. Na Palestina também não. Mas a Ucrânia segue uma política russofóbica e, em alguns casos, como dizem alguns, neonazi. Quanto à legitimidade, esse é outro tema. Não importa quando essa reunião aconteça: é necessário saber quem assina os documentos pela parte ucraniana.
Jornalista - O presidente Putin não reconhece Zelensky como líder legítimo da Ucrânia?
Lavrov - Reconhecemos Zelensky como líder de facto do regime, e estamos dispostos a reunir-nos nessa qualidade. Mas, para assinar documentos legais, é necessário que quem assina seja legítimo segundo a Constituição ucraniana.
Jornalista - Bem, ele foi eleito democraticamente. Senhor ministro, o presidente Trump disse a Macron que acredita que Putin quer fazer um acordo consigo. Isso é verdade?
Lavrov - Não entraria nesse tipo de exercício semântico. Putin foi convidado por Trump, visitou o Alasca e tiveram uma reunião substancial em Anchorage, onde discutiram questões reais de segurança. A violação dos interesses de segurança da Rússia está na origem do conflito. Desde 1990 foram feitas promessas de que a NATO não se expandiria, promessas que não foram cumpridas. Em 2008 e novamente em 2021 foram propostas soluções de segurança entre a Rússia, os EUA e a NATO, que foram ignoradas.
Jornalista - Senhor ministro, apenas para confirmar: a Rússia atacou uma fábrica americana perto da fronteira húngara esta semana?
Lavrov - Não ouvi esse incidente. Não disse isso. Fiz uma pergunta retórica: se uma empresa participa na produção de material militar, será que deve ser imune apenas por ter capital americano?
Jornalista - Senhor ministro, porque não parar a guerra se quer a paz?
Lavrov - Estamos a atacar apenas alvos ligados diretamente ao complexo militar ucraniano. Se tiver provas de ataques a civis, apresente-as.
Jornalista - Cerca de 50 mil civis terão sido mortos ou feridos nesta guerra.
Lavrov - Peço que apresente provas concretas dessas alegações."
(tradução literal dos primeiros 30 minutos para enquadrar o contexto)
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