sábado, 16 de março de 2019

De como a luta de classes vai matar a democracia:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/03/2019)
Miguel Sousa Tavares
(Considero este o pior artigo que li da autoria do Miguel Sousa Tavares. Toda a argumentação é um chorrilho de banalidades dissertando sobre o que me parece que só conhece de ouvir dizer, a saber, as redes sociais. A Estátua, publica uma crítica no artigo a seguir.
Ver aqui
Estátua de Sal, 16/03/2019)

Passeando-se pelo Facebook, José Pacheco Pereira encontrou ali “bullying, tribalismo, radicalismo, cobardia anónima e ajustes de contas pessoais”. Notável e tardia descoberta, embora não seja verdadeiramente recente. Foi há uns dez anos, estava o monstro nos seus inícios, que ele me tentava convencer de que eu resistia à emergência das redes sociais porque via nelas a ameaça da democratização da opinião do “povo” contra as “elites” cuja opinião monopolizaria todo o espaço público. Era a época em que ele achava também que o jornalismo tinha sempre uma agenda política própria cujo fim último era o de sabotar o poder político legitimamente eleito e constituído. Onde esse tempo já vai! E, todavia, dez anos não foi assim há tanto tempo…
Mas, em dez anos, já houve tempo para que o próprio Pacheco Pereira experimentasse na pele o execrável veneno da “democratização” da opinião consumado através das redes sociais. E, sobretudo, houve tempo para que ele e qualquer espírito lúcido pudessem lamentar a morte lenta do jornalismo de referência, às mãos dos instrumentos de destruição maciça dos senhores Zuckerberg, Bezos e outros que tais. E tempo para que todos aqueles que continuam a acreditar na democracia como instrumento de escolha dos governantes estejam seriamente assustados com a alternativa fornecida pelas fake news e a informação canalizada por algoritmos e dirigida a massas crescentes de eleitores conscientemente mantidos na ignorância e na desinformação. Neste aspecto, a pergunta já não é se existe uma conspiração contra a democracia alimentada através das redes sociais: uma comissão de inquérito do Parlamento Britânico respondeu a isso com um sim taxativo. A pergunta é como lhe fazer frente e a tempo de evitar novas falsificações da vontade dos eleitores, como o foram o ‘Brexit’ ou as eleições americanas ou italianas.
A resposta a essa pergunta não é fácil. O Facebook, o Instagram, o Twitter — o meio favorito para que os idiotas se façam eleger e governar — são verdadeiros instrumentos do Diabo. Olhados de perto, todas essas inócuas redes cujos utilizadores juram só aproveitarem para reencontrar os colegas da primária ou fazerem contactos profissionais, constituem um catálogo sabiamente fundado em todos os defeitos da natureza humana, a que, mais tarde ou mais cedo, eles irão sucumbir. Depois, é claro, é conforme a educação e os princípios de cada um. Mas a grande massa dos que ali desaguam, entregue sem freio a si própria, é um espectáculo lastimável do pior da natureza humana. A tal cobardia anónima é, fatalmente, a primeira tentação irresistível: ofender, insultar, mentir, caluniar, difamar, inventar sobre o outro a coberto do anonimato, podendo tudo dizer sem nada arriscar, deve ser uma verdadeira catarse. A seguir vem o exibicionismo (a par do correspondente voyeurismo, para o qual existem os exibicionistas), e a noção de que se é tão mais importante quanto se expõe a vida aos outros, por mais idiota que ela seja. Para sermos sérios, não foram precisas as redes sociais para descobrir isto: as “massas” foram sempre o território por excelência onde o mito do “bom povo” de desfazia perante a realidade pura e dura — bastava imaginar o Coliseu romano na Antiguidade, as fogueiras da Inquisição ou os estádios de futebol nos tempos de hoje, para o constatar. Sempre me perguntei onde estava, apenas cinco dias antes — a 24 de Abril de 1974 — o bom povo português que desfilou em massa contra o fascismo no 1º de Maio seguinte.
A coragem das multidões é facílima, a sua cobardia é inevitável. Nas redes sociais este saudável exercício de ajuste de contas com tudo e mais alguma coisa está ao alcance de um simples teclado de computador, como ainda recentemente o constatámos com o linchamento popular do juiz-desembargador Neto de Moura — que, por si só, canalizando nele toda a fúria popular, aliviou tantas consciências, elevou tantos cidadãos ao estatuto de heróis e, quem sabe, terá resolvido o problema da violência contra as mulheres. Depois de assistirem ao desfile dos “notáveis” contra o juiz e não desejando ser menos do que eles, o bom povo das redes sociais, ao que li, lançou sobre o homem uma barragem sem precedentes de insultos, ofensas e ameaças, culminando em acto de suprema coragem qual foi a criação de um site com milhares de assinaturas a desafiar o juiz a processá-los, tal como aos “notáveis”. A coisa chegou a tal extremo que até Daniel Oliveira, reconhecendo ter contribuído para tais reacções do lado dos “notáveis”, se viu forçado a escrever contra a “histeria linchadora”.
Mas o erro de Daniel Oliveira não foi o de não ter antecipado a “histeria linchadora” do povo das redes sociais — isso seria demasiado ingénuo para ser credível. O seu erro, tal como o de Pacheco Pereira, foi o de não ter percebido que aquilo que é a essência do mal das redes sociais, além da cobardia e do exibicionismo, é a luta de classes. Para um marxista é difícil aceitar que, ao contrário do dogma, a luta de classes não seja o motor que faz avançar a história, mas sim o que a faz regredir. E, todavia, é disso que se trata. O povo que vomita opiniões nas redes sociais, com a mesma facilidade com que vomita perdigotos, é justamente aquele que acredita, como outrora Pacheco Pereira, que tem direito à “democratização da opinião”. E que isso o dispensa de ter uma opinião informada, dando-se ao trabalho de ler livros, jornais, de ouvir os outros, de reflectir sobre os assuntos, de consultar relatórios, estudos, enfim, de ter trabalho com o assunto. Aliás, basta seguir um qualquer debate sobre qualquer tema nas redes sociais para logo perceber que ali ninguém está interessado em debater o que quer que seja nem sequer em convencer o outro: rapidamente qualquer esboço de troca de argumentos descamba para o insulto pessoal mais rasteiro e ordinário. Não há ali sombra de democratização de opinião, de alternativa popular às elites, do que quer que seja que se possa suportar. É a mediocridade e a inveja a arrombarem a porta, já nem sequer da democracia, mas de um mundo simplesmente habitável. E é esta gente, com estes valores e esta educação cívica e política, que elege os Trumps, os Bolsonaros, as Le Pens e os Salvinis.
Ou então, como fazem as novas gerações, abstém-se de votar, de participar na política e na vida política sob qualquer forma, porque diz que esta não a representa nem lhe interessa. Mas também não lê jornais e, tirando os seus nichos de interesses, não segue o que se passa no mundo. Todos os políticos e todos os editores de informação do mundo inteiro procuram desesperadamente a resposta à pergunta de como trazer as novas gerações para o seu mundo — pois que não têm outro para lhes oferecer. Ninguém encontra a resposta certa, mas uma coisa eu sei: a democracia representativa, tal como a conhecemos (e eu não conheço outra) não sobreviverá sem um jornalismo de referência. O verdadeiro jornalismo não ameaça o poder político democrático, não usurpa a sua legitimidade própria: nunca o fez. Pelo contrário, é a sua primeira trincheira de defesa. Contra si mesmo e contra essa nova e tenebrosa ameaça que é o obscurantismo organizado das massas.
Hoje, assistimos à morte acelerada do jornalismo às mãos daqueles que na sombra descobriram como manipular o sinistro algoritmo capaz de controlar os milhões de brothers das redes sociais. E, a par da morte do jornalismo, perfila-se a morte das democracias. Que ninguém duvide.
Do blogue Estátua de Sal

sexta-feira, 8 de março de 2019

Sondagem: PS destacado, mas longe da maioria. Portugueses gostam do Governo:

(In Expresso Diário, 08/03/2019)




António Costa vê o seu partido com mais 12 pontos que o PSD de Rui, que está perto do pior resultado de sempre

Em ano de várias eleições, o Expresso tem novas sondagens. Esta semana começam os inquéritos feitos para o Expresso e a SIC pelo ICS e o ISCTE, com o trabalho de campo a ser realizado pela GfK Metris. Intenção de voto e avaliação do Governo são dois dos tópicos perguntados aos portugueses. Confira os resultados.

Qual o partido melhor colocado para vencer as legislativas? Poderá haver maioria absoluta? Das novas forças presentes na competição eleitoral, qual está melhor colocada nesta altura?
Estas são algumas das questões a que procuramos responder no lançamento dos novos estudos e sondagem para o Expresso e a SIC, que resultam de uma parceria com o Instituto de Ciências Sociais e o ISCTE, e que contam com o trabalho de campo feito pela GfK Metris.
Mas esta primeira sondagem conta com outros pontos de interesse: perguntamos aos inquiridos o que pensam do Governo de António Costa e como o comparam com o executivo anterior, de Passos Coelho. Olhamos para a popularidade dos nossos políticos aos olhos dos portugueses. Tentando por exemplo perceber se Marcelo é mais popular à esquerda ou à direita. E fomos saber qual a avaliação que os portugueses fazem da situação económica – um dado absolutamente decisivo e influente no comportamento dos eleitores no dia de irem às urnas votar.
Este estudo foi coordenado por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTEIUL), tendo o trabalho de campo sido realizado pela GfK Metris. O responsável pela equipa é Pedro Magalhães, e dela fazem parte nomes como os de Marina Costa Lobo e Pedro Adão e Silva. Os três assinam textos de análise sobre pontos da sondagem na edição do Expresso desta semana.
PS DESTACADO, MAS LONGE DA MAIORIA
O gráfico mostra que o PS dispõe de vantagem sobre o PSD, mas que CDU, CDS e BE estão, para todos os efeitos, empatados. Mais abaixo, PAN e Aliança obtêm, respetivamente, 3% e 2% das intenções de voto.
Os socialistas têm 12 pontos de vantagem sobre o PSD. Uma folga confortável para pensarem em vencer eleições. Mas o resultado do partido de António Costa deixa-o bem longe da meta da maioria absoluta dos deputados no Parlamento. Os restantes partidos da geringonça aparecem com oito por cento das intenções de voto cada.
À direita, o partido de Rio arrisca nesta altura vir a ter um dos piores resultados do PSD na urnas. E a soma com o CDS é semelhante à obtida pelo PS em 2015.
Quanto aos pequenos e sobretudo aos novos partidos, uma da curiosidade deste ano, apenas a Aliança de Santana Lopes consegue um resultado que merece registo.
QUANTO VALE ESTE GOVERNO?
Há mais inquiridos a fazerem uma apreciação positiva do desempenho do Governo do que uma apreciação negativa. Pouco mais de metade dos inquiridos consideram que o Governo está a fazer um “Bom” trabalho, com as opiniões positivas a totalizarem 54% nesta amostra.Cerca de um em cada três inquiridos acha que o Governo está a fazer um trabalho “Mau”ou “Muito mau”. Cerca de um em cada dez inquiridos não exprimiu opinião, e as posições extremas foram escolhidas por uma percentagem reduzida de inquiridos.
Nesta amostra, a avaliação do Governo piora ligeiramente à medida que aumenta a instrução, mas a avaliação é globalmente positiva mesmo entre o segmento mais escolarizado. A relação entre as predisposições partidárias e ideológicas dos inquiridos e a sua apreciação do desempenho do Governo é forte: a percentagem dos simpatizantes do PS que faz uma apreciação positiva é mais de três vezes superior à que se encontra entre os simpatizantes do PSD. Uma disparidade semelhante — se bem que não tão expressiva — encontra-se entre os inquiridos que se posicionam à esquerda e os que se posicionam à direita.
QUAL É O MELHOR GOVERNO?
Comparado o trabalho do atual governo com o do governo anterior, apenas 15% consideram que o atual governo está a fazer um “Pior” ou “Muito pior” trabalho, contra 49% que defendem a ideia oposta. Contudo, cerca de um em cada três inquiridos não deteta diferenças entre este governo e o anterior.

PROJEÇÃO DA INTENÇÃO DE VOTO

COMO VOTARIA SE HOUVESSE HOJE ELEIÇÕES LEGISLATIVAS?
Projeção excluindo abstencionistas (9%) e após imputação de indecisos (17%) e recusas (0,2%). Entre parêntesis, % em relação ao total da amostra.




































FICHA TÉCNICA
ESTE ESTUDO FOI COORDENADO POR UMA EQUIPA DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (ICS-ULISBOA) E DO ISCTE – INSTITUTO UNIVERSITÁRIO DE LISBOA (ISCTEIUL), TENDO O TRABALHO DE CAMPO SIDO REALIZADO PELA GFK METRIS. O UNIVERSO DO ESTUDO É CONSTITUÍDO PELOS INDIVÍDUOS, DE AMBOS OS SEXOS, COM IDADE IGUAL OU SUPERIOR A 18 ANOS RESIDENTES EM PORTUGAL CONTINENTAL. OS RESPONDENTES FORAM SELECIONADOS ATRAVÉS DO MÉTODO DE QUOTAS, COM BASE NUMA MATRIZ QUE CRUZA AS VARIÁVEIS SEXO, IDADE (7 GRUPOS), INSTRUÇÃO (3 GRUPOS), OCUPAÇÃO (2 GRUPOS), REGIÃO (7 REGIÕES GFK METRIS) E HABITAT/DIMENSÃO DOS AGREGADOS POPULACIONAIS (5 GRUPOS). A PARTIR DE UMA MATRIZ INICIAL DE REGIÃO E HABITAT, FORAM SELECCIONADOS ALEATORIAMENTE 83 PONTOS DE AMOSTRAGEM ONDE FORAM REALIZADAS AS ENTREVISTAS, DE ACORDO COM AS QUOTAS ACIMA REFERIDAS. A INFORMAÇÃO FOI RECOLHIDA ATRAVÉS DE ENTREVISTA DIRECTA E PESSOAL NA RESIDÊNCIA DOS INQUIRIDOS, EM SISTEMA CAPI. A INTENÇÃO DE VOTO FOI RECOLHIDA RECORRENDO A SIMULAÇÃO DE VOTO EM URNA. O TRABALHO DE CAMPO DECORREU ENTRE OS DIAS 9 E 21 DE FEVEREIRO DE 2019 E FOI REALIZADO POR 45 ENTREVISTADORES, QUE RECEBERAM FORMAÇÃO ADEQUADA ÀS ESPECIFICIDADES DO ESTUDO. FORAM CONTACTADOS 2541 LARES ELEGÍVEIS (COM MEMBROS DO AGREGADO PERTENCENTES AO UNIVERSO), TENDO SIDO OBTIDAS 801 ENTREVISTAS VÁLIDAS (TAXA DE RESPOSTA DE 32%). TODOS OS RESULTADOS FORAM SUJEITOS A PONDERAÇÃO POR PÓS-ESTRATIFICAÇÃO DE ACORDO COM A FREQUÊNCIA DE PRÁTICA RELIGIOSA DOS CIDADÃOS PORTUGUESES RESIDENTES NO CONTINENTE COM 18 OU MAIS ANOS, A PARTIR DOS DADOS DA VAGA MAIS RECENTE DO INQUÉRITO SOCIAL EUROPEU. A MARGEM DE ERRO MÁXIMA ASSOCIADA A UMA AMOSTRA ALEATÓRIA SIMPLES DE 801 INQUIRIDOS É DE +/- 3,5%, COM UM NÍVEL DE CONFIANÇA DE 95%.

Do blogue Estátua de Sal

Mulheres e Revolução:

(Por Maria Velho da Costa, in Cravo, Dezembro de 1975)
(Esta é a minha homenagem a todas as mulheres, na passagem de mais um 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. É um texto magnífico de Maria Velho da Costa, datado é certo, porque escrito na sequência das madrugadas promissoras de utopia do 25 de Abril, mas que no essencial continua infelizmente demasiado actual. Uma síntese do texto, declamado pelo saudoso Mário Viegas e por Lia Gama, pode ser vista no vídeo que deixo na parte final.
Estátua de Sal, 08/03/2019)

1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.
2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná -lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer uin borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.
3. PRODUÇÃO
Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.
4. SERVIÇOS
Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.
5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA
Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quiz.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso. — Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.
6. PRODUÇÃO DE DESEJO
Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
7. REVOLUÇÃO
Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Mulheres e Revolução – Por Mário Viegas e Lia Gama

quarta-feira, 6 de março de 2019

Desumanização em marcha:























A desumanização parece ter se concluído em muitas pessoas. Situações assim são comuns em guerras. O outro, o adversário, o inimigo, é “desumanizado” e passa a ser tratado como se fosse uma “coisa”. Assim o governo norte-americano, por exemplo, fez com os coreanos do norte, com os vietnamitas do sul e com os japoneses. Eram os “gooks”. Não eram pessoas, eram inimigos a liquidar. 

No Brasil quem conhece bem isso são os negros, pois viveram e vivem a existência de “inimigos” ou, no máximo, serviçais. Carregam na própria pele a justificativa para a violência de que são objeto. Em verdade, é assim com todo pobre, mas a gradação da violência varia com a maior ou menor possibilidade de atenuar os sinais de pobreza.

Uma roupa melhor, um modo de falar formalmente elaborado, certo domínio de etiquetas sociais etc., tudo ajuda a dissimular a pobreza e a minimizar seus efeitos sobre suas vítimas. Mas não há como se livrar da cor da pele, a não ser deixando de ser pobre. Foi o que ensinou o brilhante e triste Michael Jackson.

Mas voltando ao espetáculo mórbido de desumanização ao qual estamos sendo expostos desde que essa família de doentes ganhou projeção política. Lula representa para eles um inimigo a ser eliminado. Não é uma pessoa. Como não é ninguém que seja diferente deles. Ou se é igual ou subordinado. Esse é o mundo lúgubre dessa horda.

A desumanidade implica a desumanização do outro. Para afirmá-la é preciso também negá-la ao outro. Trata-se de um esforço monumental de rebaixamento geral das poucas conquistas civilizatórias obtidas com muito custo.

Lula, queira-se ou não, representa as ambiguidades de uma nação mergulhada em desigualdades. É o único fruto dessa nação que se tornou seu líder. E como tal foi capaz de governar.

Sabes que sou um crítico dos governos de Lula e Dilma. Um crítico, quero acreditar, à esquerda. Mas não tenho dúvida de que ele representa e encarna tudo o que nossas elites mais odeiam e temem, a pobreza. Por isso, no Brasil de hoje o extermínio da pobreza é igual ao extermínio dos pobres. Lula não é pobre, mas representa a pobreza.

A luta dessa gente desumana é para mostrar o “lugar dos pobres”, para mostrar que pobre é bicho, precisa ser preso, não ter direitos, não ter família, não saber o que é dignidade.

É muito sério!!

É muito grave!!

E que haja tantas pessoas no país concordando com tudo isso é sinal alarmante de nossa involução civilizatória.

Lula revela para o mundo o que é ser pobre no Brasil. Aquilo pelo que está passando é emblemático. E não tenho mais nenhuma dúvida de que em sua biografia encontraremos a síntese mais que perfeita de nossa sociedade tupiniquim.

Eu estou profundamente desalentado com o que estamos vivendo, vendo, sentindo.

Nem nos meus prognósticos mais sombrios – e eles sempre são bem sombrios – eu consegui imaginar algo assim.

Meu esforço pessoal é para não me desumanizar e para continuar acreditando que essas pessoas são doentes. Sua doença é não gostar de pessoas que não sejam iguais a si mesmas ou aceitem subordinar-se a eles sem resistência.

Lula sabe disso e de muito mais. Minhas críticas políticas a ele não apagam minha admiração. Não é comum uma pessoa que sobrevive às injustiças e desumanidades a que ele vem sendo submetido com a grandeza dele.


Preso, Lula é mais livre que toda essa gente. Grades contém o deslocamento do corpo. Mas o que dizer de mentes que impedem a formação de seres humanos?

por Marcelo Seráfico, Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


terça-feira, 5 de março de 2019

Carnaval:

Não sou um fervoroso adepto. Não tenho por hábito me “transformar” neste dia. Sou o que sou e com isso já me sinto bastante bem. Não preciso de me disfarçar. Não sou exuberante. Mas gosto do que vejo ao espelho.
Mas… não sou narcisista ou como o outro que foi a uma exposição de quadros e ficou maravilhado com um. Dirigiu-se à funcionária para o comprar e quando lhe disse qual era a funcionária disse-lhe: não é um quadro é um espelho. Por isso o meu reafirmar de não ser narcisista. Também não critico quem goste de se disfarçar neste dia. Os gostos são relativos.

Também sei que esta celebração é um produto do consumismo. Mas o que existe hoje que não seja celebrado a pensar no consumo e na promoção social? Desde Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, e outras coisas mais. Não é por rimar que se torna realidade.
Também não percebo porque a véspera de Carnaval é sempre à Segunda-feira. Ah! Já sei. É porque o Carnaval é sempre à terça-feira.

sábado, 2 de março de 2019

Um País, dois sistemas:

Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 02/03/2019)
Miguel Sousa Tavares
1 Terça-feira era esta a manchete do “Público”: “Só o PSD e o PR podem salvar as reivindicações dos professores”. Fiquei a pensar em como este título reflectia duas coisas eloquentes. Em primeiro lugar, a nunca falhada solidariedade militante dos jornalistas com a causa — melhor dizendo, as diversas e sucessivas causas reivindicativas dos professores. No caso, com a arrastada exigência da contagem dos nove anos, quatro meses e dois dias de tempo não contados para as progressões de carreira durante o período da troika, em que o país inteiro agonizou e 400 mil portugueses, fora do amparo protector do Estado, pura e simplesmente perderam o seu emprego. Entre esses, estiveram muitos jornalistas, que, ao contrário dos professores, que não perderam o emprego por ter diminuído o número de alunos, viram desaparecer jornais e empregos ao desaparecerem leitores. A maior parte dos jornalistas portugueses não é aumentada há mais de dez anos, vive em situação precária, a lutar pela simples sobrevivência do seu posto de trabalho e não faz a mais pequena ideia do que seja progressão na carreira — muito menos o direito de a reivindicar retroactivamente. Pergunto-me se Mário Nogueira alguma vez pensará nisso, quando encontra pela frente uma bateria de microfones de jornalistas prontos a fazerem eco das suas exigências…
A segunda coisa que me chamou a atenção naquele título é que ele podia perfeitamente ter sido escrito ao contrário: “Só o PSD e o PR nos podem salvar das reivindicações dos professores”. Tudo dependia da perspectiva em que o jornal quisesse colocar os leitores: ou na perspectiva dos professores ou na perspectiva de quem teria de pagar a conta anual dos 200 e tal milhões de euros que custaria satisfazer o que pedem — ou os 1250 milhões que custaria no total satisfazer esta e todas as outras reivindicações das carreiras especiais da Função Pública, que logo se tornaria imediata exigível por um princípio de igualdade a que não seria possível o Governo furtar-se.
Chegámos aqui através de um exemplar exercício de hipocrisia política, que vai da direita à extrema-esquerda e que se vem arrastando ao longo de toda a legislatura. O ponto de partida é todos saberem que o país não tem possibilidade alguma de pagar o que os sindicatos da função pública, agindo como verdadeiras corporações, exigem do Estado, e não apenas a nível salarial. Todos estão conscientes de que foi justamente a vertigem de ceder a reivindicações incomportáveis que, por um lado, canalizou todos os recursos financeiros do Estado para a despesa pública não reprodutiva, em lugar de financiar o desenvolvimento e o investimento na qualidade dos serviços públicos, e, por outro lado, levou o Estado à falência em 2008. Mas todos temem também o poder destabilizador dos sindicatos e, sobretudo, o poder eleitoral da massa dos que são pagos pelo Estado, directa ou indirectamente: isso tornou-se absolutamente claro assim que o actual Governo terminou de executar o seu caderno de encargos com os seus parceiros de esquerda e distribuiu tudo o que tinha para distribuir, imaginando ingenuamente que daí em diante tinha comprado a paz social e garantido o controlo das contas públicas.
No caso concreto dos professores, assistiu-se a tomadas de posição partidárias que são um retrato da política no seu pior. O Governo PS fez as suas contas e ofereceu 2 anos e 6 meses contra os 9 anos e 4 meses exigidos pelos sindicatos dos professores. O PCP, como seria de esperar, colou-se aos sindicatos, sem mais. O BE, ficou numa posição mais maleável, dando-lhes razão nas exigências, mas remetendo tudo para uma negociação sobre a forma de pagamento.
E a verdadeira surpresa veio da direita: sem nunca dizerem se achavam que os professores tinham razão ou não tinham, quanto de razão é que tinham ou deixavam de ter, se era ou não possível pagar a eles e aos outros, PSD e, sobretudo, o CDS, refugiaram-se na crítica ao Governo por “falta de diálogo” e “intransigência”.
Isto, quando em várias tentativas negociais, incluindo a desta semana, os sindicatos começaram logo por dizer que não aceitavam nada menos do que os 9A, 4M, 2D — cuja exigência, ou intransigência, ostentam em pins na lapela, para que não restem dúvidas. E para que ninguém possa dizer que estiveram contra os professores, mas também para que ninguém possa dizer que abriram a porta ao descalabro das contas públicas (aquilo de que no passado acusaram o Governo de Sócrates), inventaram essa fórmula original de fazer constar no Orçamento do Estado uma cláusula que deixa em aberto uma rubrica de despesa não quantificada e a ser preenchida em função das “negociações” que impõem que o Governo tenha com os sindicatos. E agora discutem assanhadamente se o conceito de negociação que está no Orçamento é cumprido só quando se chega a acordo ou também quando não se chega a acordo porque uma das partes se senta à mesa e diz: “Não aceito nada menos do que o meu preço máximo”.
Entretanto, fortes do respaldo que lhes dá o Orçamento do Estado do continente e à beira de eleições regionais, os governos dos Açores e da Madeira, resolveram o assunto por si e trataram de satisfazer as reivindicações dos professores. Estes usam agora o exemplo regional para o esgrimirem contra o Governo de Lisboa, enquanto que o Governo da Madeira trata já de exigir mais dinheiro a Lisboa e, para essa justa luta, até já recuperou o herói caído em desgraça Alberto João Jardim. Só eu sei porque continuo ainda anti-regionalista primário…
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO
2 O senhor era médico em Braga. Trabalhava no hospital local e trabalhava também no privado: é legal e acontece com muitos. O problema está a montante: o Estado devia pagar o suficiente para poder exigir dedicação plena. Mas, enquanto assim não for, o Estado tem o correspondente ao que paga. Todavia, há regras: aquele senhor doutor meteu baixa no hospital público, ao mesmo tempo que continuou a trabalhar no privado. Ou seja, não estava doente: aldrabou, recebeu indevidamente, aproveitou-se de outra mentira de um colega que é uma verdadeira praga no trabalho público — os falsos atestados médicos. Foi apanhado e instauraram-lhe um processo disciplinar. Como também muitas vezes acontece, o instrutor foi misericordioso: propôs o arquivamento do processo. Decerto terá ponderado o habitual: que o senhor doutor era boa pessoa, que fazia falta ao hospital e que o prejuízo causado, enfim, era uma gota de água, na riqueza do Estado Português. Mas eis que, contrariando o habitual, a administração do hospital não foi na conversa do instrutor e resolveu demitir o médico. Só que… só que, ah, regressa o habitual: a máquina burocrática, desleixada ou, quem sabe, “desmotivada”, deixou ultrapassar num dia — num dia apenas — o prazo para comunicar ao falso doente médico a sua demissão. E o dito, sentindo-se assim injustiçado, foi para os tribunais. Os quais, como é habitual, demoraram oito anos — oito — a resolver o caso. A favor, claro, do injustiçado médico: “dura lex, sed lex”. O doutor está já de regresso ao serviço, mas entretanto fez as contas ao que nós, contribuintes, lhe ficámos a dever devido à sua falsa baixa e ao atraso de um dia que um funcionário demorou a notificá-lo do seu castigo: então, entre salários não recebidos, promoções que não teve, prémios que teria tido, são três — três milhões — que teremos de lhe pagar. Três milhões de euros é o que nos vão custar as férias do senhor doutor. Dir-me-ão: e a vergonha que ele vai ter de passar? Enfrentar a família, os amigos, os colegas? Oh, meus amigos, não se preocupem. Ele dirá que a culpa não é dele, é do sistema. O sistema estava ali e ele limitou-se a aproveitar. E não tenham dúvidas de que, de alto a baixo do sistema, há muitos mais como o doutor Três Milhões.
Virá o dia — que vejo com apreensão, mas que já esteve mais longe — em que só haverá dois grandes partidos em Portugal: o dos que recebem e o dos que pagam.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Do blogue Estátua de Sal