quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

As mentiras e inaceitáveis intimidações dos (ditos) enfermeiros:























Eis um caso real, hoje ocorrido num dos hospitais afetados pela greve cirúrgica, decretada pelos criminosos, que a coberto da sua suposta legitimidade sindical, querem destruir o Serviço Nacional de Saúde e, em complemento, o atual governo de maioria de esquerda: de manhã estava agendada a operação a uma paciente com problemas oncológicos, certificando-se o cirurgião em causa, que a equipa de enfermeiros destacada para aquele ato médico não incluía nenhum profissional, que estivesse em greve. Ia-se iniciar a intervenção, quando o piquete de greve surge a interrompe-la, impedindo-a de prosseguir.
O que se seguiu justificou plenamente a intervenção do bastonário da Ordem dos Médicos na condenação do que se está a passar nos hospitais públicos por  exclusiva responsabilidade dos enfermeiros. De facto sobram hoje tensões nos hospitais entre os médicos, apostados em salvarem os seus doentes, e encontram a oposição de uns supostos profissionais de saúde, que esqueceram totalmente os requisitos deontológicos necessários para merecerem ser como tal considerados. Mas, e em crescente amplitude, a revolta dos utentes do Serviço Nacional de Saúde contra uma classe, que reivindica ser «respeitada» e é, progressivamente, alvo de justificada antipatia.
Voltando ao caso concreto chegado ao nosso conhecimento ele prefigura claramente uma violação à lei da greve, porque não se podem obrigar profissionais dispostos cumprir o seu dever a não o fazerem por inaceitável intimidação dos piquetes de greve. O do hospital em causa até apareceu de manhã nas televisões a ufanar-se do cumprimento a 100% das adesões à causa, ignóbil mentira, que os jornalistas, convertidos em seus meros altifalantes, não cuidaram de confirmar junto de quem, obrigatoriamente, deveriam ouvir.
Justifica-se, pois, que o Governo não se limite a cortar relações com a bastonária dos enfermeiros, como resposta à guerra suja de que os portugueses têm vindo a ser alvo. Exige-se mais com a certeza de que a grande maioria da população secundará o pulso firme, que vier a abater-se sobre quem está a prevaricar contra o bem coletivo. E quanto ao indivíduo, que se diz secretário-geral da UGT, confirma-se o que lhe é habitual: ao abrir a boca, ou entra mosca, ou sai asneira.

Do blogue Ventos Semeados

Publicada por jorge rocha à(s) 23:32

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Carta ao Professor Marcelo:

(Por Estátua de Sal, 05/02/2019)

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Caro Marcelo.
As liberdades democráticas estão em perigo e deves tomar medidas. O meu blog, ESTÁTUA DE SAL, está impedido de publicar seja lá o que for no Facebook. Consta que os teus amigos da direita não gostam da Estátua de Sal. Não sei se é pelo facto de sal a mais fazer subir a tensão arterial, mas estou em crer que não. Estou farto de reclamar mas o Zuckerberg não me passa cartão.
Houve tempos em que eu julgava que o Facebook só censurava as fotos de meninas a mostrar as maminhas, mesmo que fossem maminhas de estátuas como eu, mas agora estou a chegar à conclusão que não é só isso. Estou em concluir que essa coisa da censura à nudez é só para enganar os incautos. A censura ocorre sempre que mostramos a realidade NUA e CRUA, sobretudo a realidade social e isso chama-se POLÍTICA e não ESTÉTICA.
Vê lá tu, que os teus amigos andam mesmo engasgados de todo. Publico no meu blog o Miguel Sousa Tavares e eles denunciam porque é abusivo. Publico o Pacheco Pereira e eles arrotam logo a avisar o Facebook de que é um conteúdo abusivo. Publico o Daniel Oliveira e eles espumam. Até publiquei um texto do Jaime Nogueira Pinto e eles, que julgavam que o homem era comunista, denunciaram-no também! Se ainda fosses comentador no EXPRESSO, como antigamente, eu publicaria certamente os teus textos e aposto que eles te iriam denunciar também ao Zuckerberg.
Eu sei que andas preocupado com as liberdades democráticas e a ascensão do populismo MAU e que achas que a melhor forma de o combater é fazeres populismo BOM. Vais aos sem-abrigo, vais aos camionistas, vais à Cristina da televisão, irás à Circulatura do Quadrado na quinta-feira, e agora foste à Jamaica tirar selfies como se vê, e até já marcaste na agenda ires lá outra vez. Parece que as polícias não gostaram gostaram nada de tal visita (ver aqui), mas tu não te importas porque o que não queres é que surjam por cá “coletes amarelos” ou de qualquer outra cor.
Ora, os meus 18000 seguidores no Facebook, andam muito agastados, porque não conseguem partilhar nada que eu publico no meu blog nas suas páginas do mesmo Facebook. Já falam que a PIDE regressou, Aqui ficam alguns exemplos retirados da caixa de comentários do blog que ilustram o estado de espírito da comunidade da Estátua:
1) “A pide do facebook não deixa passar nada da estátua de sal.”
2) “Realmente também já me apercebi de que fui interditada pelo FB de publicar tudo o que esteja ligado ao link deste blog, pelo que tenho copiado os vossos textos que, como sempre, são altamente pertinentes…nem mesmo me têm consentido a menção do link! Não percebo em que é que a Estátua de Sal vai de encontro aos padrões gerais do FB…..Espero que reclamem, preferencialmente em inglês, e que a situação se resolva o mais rapidamente possível!”.
3) “Vergonha mesmo…mas quem é o responsável por esta censura???????????”
4) “Achei este artigo fabuloso. Porém, não consigo partilha-lo no Facebook……QUE SE PASSA?????”
5) “Partilhei o texto do Daniel de Oliveira, acerca do veto presidencial, à Lei de Bases do SNS e fui censurado, fiquei impedido de publicar, ou curtir durante 48 horas”
6) “Mais um texto que o facebook recusa publicar com o argumento que outras pessoas o consideram abusivo. A censura agora é clara a favor das “doutrinas” de Trump.”
7) “Quem é o cabrão ou filho da Mariquinhas que está a censurar estas páginas? Gostava de lhe ver a cara. Saber quem é. Para lhe dizer o que dele penso !!”
Como podes ver, o tom não é nada meigo. As pessoas detestam que lhes seja cerceada a liberdade de expressão, pelo que ainda engendram para aí uma manifestação qualquer com colete ou sem colete.
Nesse sentido, para evitar males maiores a Estátua agradecia a tua visita urgentemente. Mas não venhas de surpresa. Avisa antes as televisões e os jornais. Como “valores mais altos se levantam”, a Estátua não se importa que tragas também a CMTV e os escribas do Observador.
E se achares que isto é mesmo grave, e uma ameaça ao Estado de Direito, podes também trazer o António Costa na comitiva, e até o governo em peso, para ver se a pressão de gente tão importante e distinta chama o Zuckerberg à razão. Só te peço que não tragas o Santos Silva porque ainda iria tentar convencer a Estátua a reconhecer a legitimidade do Guaidó, o que seria de todo impossível.
Na expectativa da tua visita e confiando no teu espírito de solidariedade com todos os carentes de Justiça, recebe os cumprimentos da Estátua, com a qual poderás tirar uma dúzia de selfies quando nos encontrarmos.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

A geração que está a partir:


“Estamos indo embora. A geração de ouro dos quarenta, cinquenta, sessenta e até setenta estão partindo e agora quem os vai substituir? Sem amor ao próximo. Aos pais aos parentes e amigos.”
Esta novidade não tem estes sentimentos. Não sabem o valor da vida. Tudo lhes é dado. Não sabem o que custou, lhes dar este nível de vida. Alguns até são capazes de ironizar com esta minha afirmação: “não sabem o que custou, lhes dar este nível de vida”.
Ter de abandonar o ensino primário para se fazer à vida. Com dez, onze anos ingressar no seu novo ensino. Uma profissão fosse ela qual fosse. Uns com marmita, outros, em que a sua mãe, irmã ou irmão mais novo lhe ia levar o parco mantimento. Sim parco mantimento! Um enganar de estômago.
Pelos anos fora iam ganhando experiência e sabedoria. Que este novo ensino era ministrado por outros iguais a nós. Pessoas que como nós não tiveram oportunidade de mostrar o seu real valor nos liceus ou universidades. Que na sua universidade da vida eram uns autênticos doutores.
É ver o que se conseguiu com esta geração. Está aos olhos de quem não tiver pejo em dar o real valor. O progresso que Portugal ganhou. É evidente que comparando com a maioria das Nações ainda sofremos um grande atraso. Mas se não fosse esta geração, dos quarenta, cinquenta, sessenta e até setenta o que seria deste Portugal! Um País sombrio. Cheio de barracas. A passar fome. 
Sei que ainda existe muitos a passar fome. Mas se não fosse essa tal geração muitos desta não existiam. Os seus progenitores não chegavam à idade adulta. Morriam como morreram milhares deles nos primeiros anos de vida.
Por isso esta geração deve estar grata à geração dos quarenta, cinquenta, sessenta e até setenta. Estimá-los porque eles foram os causadores do nível de vida que estão a desfrutar.
E, desfrutem-no bem.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Circulatura do Quadrado, ainda:

1.2.19


O percurso estonteante de Marcelo até ao céu:

2.2.19



«Um homem é sempre um homem, seja na sua mais simples cidadania ou no exercício da mais alta magistratura. Tem sempre atrás dele um percurso que marca a sua personalidade. A coerência é uma qualidade que distingue aquele que apresenta uma marca indelével daqueloutro que se apresenta aos concidadãos girando em função dos interesses circunstanciais.

Trump, por exemplo, adverte que as suas declarações não são para ser levadas à letra, o seu significado é diferente daquilo que semanticamente se encontra na declaração.

Quando um homem diz, na sua qualidade de mais alto magistrado da nação, que se recandidatará ao cargo que exerce por ser aquele que está em melhores condições para receber o Papa, entra no caminho, tantas vezes condenado nos Evangelhos, da mais pura hipocrisia.

Na verdade, como se pode saber que homem estará em melhores condições para receber o Papa?

O Papa é chefe de Estado e é, segundo o catolicismo, o representante de Deus na Terra.

Vindo como chefe de Estado, o que importa é o que as relações entre os dois Estados saiam reforçadas. Ninguém acreditará que o Presidente da República portuguesa não receba da melhor maneira o chefe de Estado do Vaticano.

Se fosse possível imaginar o Papa em Portugal apenas como mais um católico, quem poderia dizer, sem soberba, quem seria o melhor para receber Francisco? Aquele que mais pudesse oferecer ou quem desse o que tinha, como a viúva referida nos Evangelhos que depositou na caixa das esmolas as duas moedas menos valiosas, mas que eram as únicas que tinha?

Em 2022 realizar-se-ão em Portugal as Jornadas Mundiais da Juventude Católica com a presença do Papa, que serão seguramente enquadradas nas excelentes relações existentes entre Portugal e o Vaticano. Serão um enorme evento, mas não deixarão de ser para o Estado português um acontecimento de caráter religioso. No entanto, a presença de tantas centenas de milhares de jovens e do próprio Papa terá um elevadíssimo significado e, como tal, será devidamente encarado.

A afirmação de Marcelo quanto à sua recandidatura, no momento do anúncio do país escolhido para acolher as Jornadas de 2022, constitui uma argumentação rasteira que exigiria, face à importância do evento, uma outra elevação de espírito.

É algo, em termos de honestidade intelectual, que raia a pouca vergonha, pois o que Marcelo está a querer dar a entender é que ele é o único capaz de receber o Papa... Marcelo confunde o seu beatismo católico com o cargo de PR, o que é muito grave. Habituou os portugueses, ao longo da sua vida política, aos mais estonteantes ziguezagues, ao sim e ao não sobre a mesma realidade, chegando, o ano passado, a fazer depender a sua recandidatura do modo como o Governo resolveria as falhas do Estado... O que lhe chega ao toutiço, às vezes, sai cá para fora.

O facto de Marcelo ser católico não lhe dá nem lhe retira qualquer vantagem quando reunir enquanto chefe de Estado com outro chefe de Estado, neste caso o do Vaticano, e o PR de Portugal deverá pautar a sua conduta nos exatos termos de artigo 41.º da CRP, designadamente o n.º 4: ”(...) As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização”...

Para receber como deve ser recebido o Papa, não é preciso que venha ao de cima a confissão religiosa do chefe de Estado português, basta atentar no modo como Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva os receberam.

Proclamar ser candidato a PR pelas razões expostas é algo muito feio, que convoca o que de mais primário pode haver em quem professa a religião católica e disso quer tirar vantagem.

Só a perda da noção da realidade material do mundo em que vive, substituindo-o por outro mundo virtual, onde o que se passa na cabeça de Marcelo é apenas realidade populista, capaz de o lançar num mergulho no Tejo ou numa viagem de camião, explica o destempero beático de sua Excelência o Sr. Presidente da República.

Um homem capaz das mais variadas artimanhas para continuar a ser o que sempre foi é a marca indelével de Marcelo.»

Do blogue Entre as brumas da memória 

Um clube de amigos:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 02/02/2019)
mst
Miguel Sousa Tavares
(Esta é a segunda vez que publico este texto. O Facebook anda a bloquear-me os textos quando os partilho dizendo que “não respeitam os padrões da comunidade”. O Miguel Sousa Tavares é um desrespeitador! Cambada de censores.
Comentário da Estátua, 02/02/2019)

Tenho muitas dúvidas sobre a justiça da condenação a cinco anos de prisão efectiva de Armando Vara, por crime de tráfico de influências. Certamente que uma caixa de robalos não chega como pagamento pelo crime e mesmo que os “25 quilómetros” referidos numa conversa escutada entre Manuel Godinho e Armando Vara sejam, como pretendia o Ministério Público e o tribunal aceitou reconhecer provado, 25 mil euros de pagamento por serviços de intermediação, a verdade é que Vara não exercia na altura qualquer cargo público. E se porventura terá posto o industrial de sucatas de Ovar em contacto com pessoas que lhe terão facilitado negócios, fazendo-o a troco de robalos ou de 25 mil euros, eu conheço quem o tenha feito e continue a fazer a troco de milhões, intermediando e facilitando negócios em que o Estado investe dezenas, centenas ou milhares de milhões. Aliás, conheço, todos conhecemos, quem faça disso profissão, disfarçada ou não sob o título de advogado ou outro, à vista de todos, com a maior aceitação social, pública e política. De tal forma, que chego a pensar se ser-se apanhado em crime de tráfico de influências não será apenas uma questão de interpretação, de sorte ou de azar. Ou pior.
Mas se a prisão de Vara não me incomoda por aí além é apenas porque acredito que, se não por este caso, outros há que a justificam. Estou a lembrar-me de um telefonema entre ele, na altura administrador do BCP e acabado de chegar da Caixa, e um camarada de partido, na altura secretário de Estado. Vara tentava arrolar o outro para convencer a Caixa-Geral de Depósitos, sua antiga casa, a ficar com um crédito incobrável que o BCP tinha sobre a empresa dona do Autódromo do Algarve. Se já é extraordinário que alguém possa imaginar ganhar dinheiro com um autódromo na Mexilhoeira Grande, e ainda mais extraordinário que haja um banco para financiar tal projecto, é verdadeiramente eloquente do espírito desta gente que alguém que tinha acabado de vir do banco público para um banco privado estivesse a tentar varrer o lixo deste para aquele. Mas era com este espírito que serviam a coisa pública estes “banqueiros”, que viveram décadas a saltar de um lado para o outro, trocando de lugares uns com os outros, cobrindo-se uns aos outros, atribuindo-se prémios de gestão uns aos outros, mesmo quando no banco público e mesmo quando o que tinham para apresentar era prejuízos para os contribuintes pagarem. Para eles, para este clube de amigos, não tenho a menor dúvida de que lhes era absolutamente indiferente se o banco era público ou privado: tratava-se apenas de gerir as suas carreiras, de precaver as indemnizações sumptuosas em caso de saída antecipada e as reformas escandalosas no futuro. O problema com Armando Vara é que, por enquanto ele esteja sozinho na cadeia de Évora.
Durante sete meses, o Banco de Portugal e a CGD calaram-se muito caladinhos sobre o relatório da Ernst & Young, pedido pelo Ministério das Finanças. É de crer que jamais teriam sequer revelado a sua existência, se uma fuga de informação o não tivesse feito. Aos deputados da CPI da Caixa recusaram-se inclusivamente a revelar a lista dos principais devedores, com o estafado e hipócrita argumento do sigilo bancário — depois e a coberto do inquérito aberto pelo MP, logo oportunamente acrescentado com o do segredo de justiça, esse manto protector que tanto jeito dá quando invocado em benefício de quem tem alguma coisa a esconder. Bem a propósito também, e segundo relata o jornal “Público”, o Banco de Portugal terá já lembrado que as contra-ordenações motivadas por eventuais actos de gestão danosa praticadas na Caixa já prescreveram, decorridos os respectivos prazos. Um verdadeiro alívio — não apenas para os antigos gestores da Caixa, mas também para o governador e membros à época da administração do BdP, mais uma vez dispensados de explicar porque nada viram, ano após ano, nada estranharam, nada vigiaram. Também não admira: consultar os nomes constantes do relatório da E&Y é como folhear um álbum de família: o actual governador do BdP foi também administrador da Caixa e o actual presidente da Caixa, Paulo Macedo, foi vice-presidente da mesma com Carlos Santos Ferreira — o homem que, juntamente com Armando Vara, se aventuraria na mais inacreditável operação bancária de todos os tempos: o financiamento, pelo banco público, do assalto ao BCP, lançado por um grupo de mavericks do sector privado. A operação, garantida apenas pelas próprias acções adquiridas pelos “assaltantes” ao BCP, redundaria no maior desastre financeiro da Caixa até hoje. Entre esses “assaltantes”, e como terceiro maior devedor actual da Caixa, está Manuel Fino, cliente do escritório de advogados Vieira de Almeida (VdA), também conhecido como o “EET” (Está Em Todas. Fino e outros dos seus companheiros de assalto foram assessorados pela VdA na tentativa falhada de conquista do BCP, cujos prejuízos gerados para a Caixa vão agora ser investigados, entre outras entidades e por dever de ofício (ou de sacrifício), pela própria Caixa. E quem é a autoridade externa que a Caixa escolheu para levar a cabo uma auditoria aos actos de gestão então praticados pelas anteriores administrações, entre as quais a que tão levianamente emprestou milhões a perder literalmente de vista ao cliente da VdA? Quem, quem foi? Pois, não se riam: foi a VdA, nem mais! É ou não é um clube de amigos? Dizem que foi por concurso e que a púdica VdA assinou uma declaração a jurar que não, nunca, jamais, olha como!, tem, teve ou terá nisto qualquer conflito de interesses. Como se houvesse concurso ou declaração alguma que pudesse disfarçar o que está para lá de tudo o que é admissível. Como se uma jura de insuspeitos cavalheiros, ou outro segredo bancário ou de justiça, ou até um véu islâmico, uma burqa, uma pele de tigre, pudesse disfarçar a indecente nudez deste rei nu na praça pública!
Não nos dêem hospitais miseráveis, bairros da Jamaica, comboios de Terceiro Mundo, quando chegamos a pagar 50% de impostos e o dinheiro vai para tapar os buracos cavados na banca por um grupo de gente deixada à solta a tratar de uma coisa da maior importância: o dinheiro dos outros
O que revolta em toda esta história e todas as demais a que já assistimos — o BES, o Novo Banco e a sua desastrosa Resolução (de que não convém falar muito, mas nos vai custar entre 10 mil a 12 mil milhões), o BPN, o Banif, a CGD, (e esperando que a coutada do senhor Tomás Correia não desabe para nós também no dia em que correr mal) — é saber que Portugal é o segundo país da Europa em que, em percentagem do PIB, os contribuintes mais dinheiro tiveram de investir a acorrer à banca, pública e privada.
Aprendemos todos na escola que os bancos existem para financiar a economia, mas em Portugal aprendemos à nossa custa que é ao contrário: a economia existe para financiar a banca. E o que resta é quase tudo para financiar o Estado: não admira que nunca mais nos livremos do nosso ancestral atraso. Todos viveríamos melhor se não tivéssemos de pagar os impostos que pagamos e se parte deles, parte substancial deles, não fosse usada para pagar os desmandos, as malfeitorias ou os crimes do nosso clube de amigos da banca. Para mim, que nunca fui jogador, é pior do que se me obrigassem a perder dinheiro no casino: ao menos sempre me divertia a jogar, em vez de ver os outros divertirem-se a jogar o meu dinheiro. Querem comprar o BCP? Paguem-no com o dinheiro deles! Querem um autódromo no Algarve? Paguem-no com o dinheiro deles! Querem inventar um negócio impossível em Vale do Lobo, depois de terem urbanizado e vendido cada metro quadrado disponível? Paguem-no com o dinheiro deles! Mas não nos dêem hospitais miseráveis, bairros da Jamaica, comboios de Terceiro Mundo, quando chegamos a pagar 50% de impostos, só de IRS, e o dinheiro, em vez de ir para hospitais, habitação social e transportes decentes, vai para tapar os buracos cavados na banca por um grupo de gente deixada à solta a tratar de uma coisa da maior importância: o dinheiro dos outros. Enquanto eles, depois, saboreiam em paz as sempre oportunas prescrições e as sempre generosas pensões de reforma.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
Do blogue Estátua de Sal

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Poderia ser ele quem não é?


A greve cirúrgica dos enfermeiros, as reportagens com o bastonário da Ordem dos Médicos a ter nos jornalistas, quem lhe segure no altifalante para dizer mal do SNS, ou um «estudo» da DECO a elogiar a qualidade dos hospitais privados, são três vertentes de uma guerra de resultados ainda incertos: ou os interesses dos grandes grupos económicos do setor saem vencedores e agravam ainda mais a situação de sangria dos recursos públicos para que embolsem maiores lucros, ou regressa-se ao projeto original de António Arnaut, dando primazia ao que do Estado não deveria dissociar-se.
Trata-se de uma disputa entre duas visões ideológicas opostas, uma apostando no princípio da incompatibilidade da saúde dos cidadãos com a ideia de negócio, a outra prezando exatamente o contrário. Porque sabemos bem o que isso significa: se a saúde dos cidadãos é razoável, os hospitais privados multiplicam-lhes os dispendiosos exames clínicos para confirmarem o quão bem estão. Mas, tão-só neles detetem doenças graves, que impliquem custos acima do patamar de rentabilidade, logo os enxotam para os hospitais públicos para ser o Orçamento Geral do Estado a arcar com esses encargos. Paralelamente são estes mesmos serviços públicos a garantirem a formação e os estágios aos jovens médicos para, depois, quando dotados de maiores competências, os verem atraídos por quem neles não havia investido um euro que fosse.
Tudo isto vai ficando muito claro aos portugueses que, apesar de bombardeados com notícias de disfuncionalidades do SNS sabem nele ter a resposta devida aos seus problemas de saúde. Daí que surpreenda a imprudência de Marcelo em se colar tão veementemente ao campo dos que pretendem impor os negócios privados aos interesses públicos. Como se viu no «Eixo do Mal» com Pedro Marques Lopes, nem os seus mais confessos apoiantes arranjam justificação para esse alinhamento. Que, porém, não se estranha: como poderia ele ser quem não é? Enquanto se tratar da contradição entre o bem público e o que só diz respeito a uma elite financeira, com quem sempre privou como amigo do peito, Marcelo pende invariavelmente para esta última trincheira...

Publicada por jorge rocha à(s) 01:31

Do blogue Ventos Semeados