quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Bolsonaro, um Salazar brasileiro:

«Os dois discursos que ontem Jair Messias Bolsonaro fez na tomada de posse prenunciam o pior. Já sabíamos, evidentemente, desde o início da campanha, mas o capitão reformado entendeu não desiludir quem o elegeu para o cargo de Presidente do Brasil. O elevado grau de aprovação com que Bolsonaro chega ao Planalto é, evidentemente, um susto para quem defende a liberdade e a democracia no sentido ocidental do termo.

Para nós, portugueses, assistir ontem aos discursos de Bolsonaro, trouxe reminiscências dos discursos de um homem que saiu do poder em 1968, embora isso tivesse acontecido por doença: Oliveira Salazar. Bolsonaro traz agora para ideologia oficial do Brasil tudo aquilo que foi a cartilha da ditadura portuguesa, o mesmo ódio às "ideologias", a religião como parte do Estado, a defesa dos valores das famílias ultraconservadoras, o mesmo horror aos "vermelhos".

Há uma frase que não poderia nunca ter sido usada durante a ditadura, porque naquele tempo a expressão "ideologia de género" era desconhecida, mas é todo um programa: "Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar a religião, a nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de género, conservando os nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas". A ideologia dos que são "contra os políticos" foi expressa por Salazar na sua época - aliás, a sua ascensão ao poder e o golpe de 20 de Maio de 1926 tiveram, como tem agora Bolsonaro, um esmagador apoio popular.

Tudo naquela cerimónia de posse foi um monumento à tragédia anunciada: o discurso do número 2, o general Hamilton Mourão, foi um regresso às cavernas que o povo aplaudiu em delírio; o fim do discurso de Bolsonaro, quando ergue a bandeira brasileira em conjunto com Mourão e grita: "Esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha, só será vermelha se for do nosso sangue derramado para a manter verde e amarela".

Bolsonaro vem preencher um anseio profundo da população, o da segurança seja de que maneira for. "Temos o desafio de enfrentar a ideologia que descriminaliza bandidos, pune polícias e destrói famílias, vamos restabelecer a ordem no país", disse ontem, já depois de ter prometido liberalizar o acesso às armas. O anseio da "ordem" também foi o que levou Salazar ao poder. A democracia brasileira é demasiadamente jovem, mas também as democracias jovens podem morrer.»

Ana Sá Lopes

Do blogue Entre as brumas da memória 

Entradas de leão:

2019 começa com a posse do novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, segundo alguma imprensa, inequivocamente um homem da extrema direita.

Portugal fez-se representar na posse pelo presidente da república, que terá sido o único chefe de estado europeu presente na cerimónia.
Compreende-se.
As relações entre Portugal e o Brasil não devem andar ao sabor das conjunturas.
Porém, o surgimento de regimes fascisantes em algumas democracias é preocupante.

Esperemos que as ameaças verbais não passem de entradas de leão.

Do blogue A Forma e o Conteúdo

Só agora é que sai a noticia:

Imprensa estrangeira escolhe Centeno para personalidade do ano

Economia











A “chegada no início do ano à presidência do Eurogrupo” está na base da decisão dos correspondentes estrangeiros
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A Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal anunciou esta terça-feira ter escolhido Mário Centeno para personalidade de 2018, atribuindo ao ministro das Finanças o Prémio Martha de la Cal. A “chegada no início do ano à presidência do Eurogrupo” está na base da decisão dos correspondentes estrangeiros.



“Apresentado na imprensa internacional como O Ronaldo das Finanças, ele foi saudado como o primeiro líder do grupo de ministros das Finanças da Zona Euro com origem no sul da Europa, em particular de um país que foi alvo de um programa de resgate financeiro”, lê-se numa nota da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP) enviada às redações.
O 29.º Prémio Martha de la Cal – jornalista norte-americana, já falecida, que trabalhou como correspondente da revista Time em Portugal - vai ser entregue no início do próximo ano.

No mesmo comunicado, o presidente da AIEP, Levi Fernandes, afirma que, na perspetiva dos correspondentes estrangeiros, “Mário Centeno, enquanto presidente do Eurogrupo, um cargo internacional de relevo, com uma forte projeção internacional, que colocou o nome de Portugal em muitas reportagens na imprensa estrangeira, enquadra-se perfeitamente nos critérios do prémio”.

O Prémio Personalidade do Ano - Martha de la Cal visa “distinguir a pessoa ou a instituição que mais contribuiu para promover a imagem do país no estrangeiro durante o ano”. Foi instituído em 1990 e é atribuído anualmente, após “eleição dos 60 jornalistas estrangeiros acreditados e inscritos na Associação”.

A AIEP recorda que esta distinção foi já “entregue a empresários, políticos, artistas, desportistas e instituições”. 

“Entre os escolhidos estão nomes como o escritor José Saramago, a fadista Mariza, os Capitães de Abril, o antigo presidente Mário Soares, o futebolista Cristiano Ronaldo e o secretário-geral da ONU, António Guterres. O ano passado, o prémio foi entregue aos irmãos Luísa e Salvador Sobral, vencedor do Festival da Eurovisão”, acrescenta a estrutura.

A extrema - direita ressuscitou e floresce:

(Carlos Esperança, 01/01/2019)
bolso1
A posse de Bolsonaro, um primata abrutalhado que, após a expulsão do exército, correu como deputado, por numerosos partidos brasileiros, sem atividade legislativa, a recolher benefícios do cargo, é a cereja no bolo da demência que grassa no continente americano.
As democracias são aí exóticas, residuais ou em vias de extinção, a sul do Canadá. Basta um segundo mandato de Trump para acabar com veleidades de eleições livres em países da América Central e do Sul.
É evidente que Jair Bolsonaro não quer, não pode e não sabe governar em democracia. O Senado e o Congresso dos deputados, onde muitos estão habituados a trocar o voto por benefícios pessoais, sem ideologia e sem entusiasmo na defesa do interesse público, não lhe vão facilitar a vida.
Quem conhece a cultura de caserna do cavernícola que as redes sociais, as televisões e a influente lepra evangélica levaram ao poder, facilmente adivinha que as botas cardadas serão o seu modelo e as espingardas o apoio que solicitará. Resta saber se a tropa, com que conta, estará disposta a aventuras e terá por ele a afeição do bispo Edir Macedo.
Deixar 200 milhões de brasileiros nas mãos de um boçal sem experiência governativa, sensatez ou projeto é um perigo para a sobrevivência dos mais pobres e um incentivo à violência que a liberalização do uso de armas não deixará de estimular.
Jair Bolsonaro considera-se um enviado de Deus e tem o apoio de Trump, as orações de Duterte, o assassino das Filipinas, e ainda a ajuda de toda a extrema-direita mundial e de Israel, para além dos que pretendem a Amazónia e deter os recursos do subsolo, o que garante o aumento do PIB que o ajudará a endurecer o poder.
Francis Fukuyama enganou-se rotundamente quando previu o fim da História. Está em marcha um retrocesso que não brota apenas no continente americano, é uma mancha de óleo que alastra a todo o Planeta e já contaminou a Europa. Os inimigos da democracia e dos direitos humanos, paradoxalmente, alcançam o poder pela via democrática. Hoje, são eleitos indivíduos que eram casos de polícia e agora se tornam líderes políticos.
A tomada de posse de Bolsonaro, com coreografia pífia e desajeitada, parecia mais uma parada militar do que a substituição de um PR em democracia. A faixa presidencial lá passou do corrupto golpista, Michel Temer, para Messias Bolsonaro, que hesitou em entrar de cabeça ou com o braço à frente.
“O Brasil acima de tudo [Deutschland über alles] e Deus acima de todos”. Bolsonaro dixit.
Depois, foi o sombrio desfilar de figuras menores onde o abraço sionista de Netanyahu foi o mais demorado, e o de Marcelo, o único PR da Europa, parecia uma ida mais a um velório onde, despachados os pêsames, fugiu a ver os netos ou a esconder a vergonha.
O juiz que prendeu, investigou e condenou Lula da Silva lá fará companhia a Bolsonaro e a vários generais, indiferente à humilhação que infligiu à Justiça com a sede de poder que o devorou.
Não é um governo que o ex-capitão comanda, é uma companhia de tropa sem vergonha
Do blogue Estátua de Sal

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

O ano:

Começa sempre no dia um de Janeiro e acaba a trinta e um de Dezembro. Nada mais matemático. Este começou bem embora diferente da maioria dos que tenho passado. E, já os passei, dois em Angola, há quase cinquenta anos, e três na Ilha da Madeira há cerca de vinte. Mas este de dois mil e dezanove foi uma hora mais cedo. 
Não foi porque o meu relógio - aliás nem o uso, desde que tenho telemóvel não preciso e assim escuso de andar com o pulso ornamentado - andasse adiantado, mas sim por estar noutro País e sujeito a novo fuso horário. 
O País é o mais democrático do Mundo. Não fosse considerado pelos seguintes simbolos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Como estava a descrever sobre o ano de dois mil e dezoito ele foi passado - virado como dizem os Brasileiros - na bonita e agradável cidade - Ville - de Saint Etienne. 
Disse "bonita, agradável" e agora acrescento calma, tirando as manifestações dos coletes amarelos (gilets jaunes). 
Não é a primeira vez que aqui me encontro mas numa passagem de ano sim. Foi uma passagem igual a muitas que tenho passado em Portugal - Freamunde. 
Não sou exorbitante. Por isso remeto-me sempre ao aconchego do lar.Também aqui em Saint Etienne a vida nocturna é diferente. 
Os Estabelecimentos comerciais - Cafés e afins - às vinte e duas horas estão encerrados. 
A minha carteira não anda recheada para poder ir para os Clubes nocturnos ou Casino dar largas à alegria e assim mostrar a minha exorbitância.
Mas também sou apologista de: boa romaria faz quem em sua casa está em paz.
E, assim foi passado - virado - o ano de dois mil e dezoito. 
Que o de dois mil e dezanove seja melhor. Se não for pelo menos igual. 

O pior de 2018:



O pior de 2018 foi não termos alguém do PSD (tanto fazia) e a Assunção Cristas a governar a malta. Com esse pessoal a despachar decretos-lei, os professores já tinham recuperado todo o tempo de serviço e o mais que se lembrassem de pedir, os enfermeiros passariam a tirar os pensos com muito maior delicadeza e carinho e quem pensasse em fazer greves a cirurgias (ou que fosse ao corte das unhas) seria tratado como efectivo criminoso, os magistrados do Ministério Público teriam Joana Marques Vidal firme no comando da PGR por mais 6 ou 60 anos (o tempo que levasse a exterminar a praga de corruptos com ninho no Rato), o valente Ventinhas poderia dedicar-se a tempo inteiro a comentar processos judiciais em curso e caluniar certos arguidos que ele não grama, e, claro, as 20 estações de Metro da Cristas (com um custo simpático de dois mil milhões de euros) estariam quase prontas.
Os direitolas, quando vão para a oposição, transmutam-se em paladinos do Estado, da coisa pública, do investimento nos serviços sociais em favor dos mais desfavorecidos. Ou seja, a direita na oposição mal se distingue das pessoas decentes. É, pois, lamentável que o PS não tenha deixado entrar à socapa nos Conselhos de Ministros alguém do PSD (tanto fazia) e a Assunção Cristas (ou deixá-la participar por SMS, feito artístico em que se terá especializado nesses dias de canícula em que só apetece piscina ou beira-mar).

Do blogue Aspirina B

Bom Ano:

A quem acompanha o blogue "Coisas que Podem Acontecer" desejo um bom ano de 2019.