segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Volto à carga e… com imagens:

Há dias, cerca de duas semanas, escrevi um pequeno texto sobre o abandono do rio do Parque de Lazer de Freamunde. De nada valeu. Tanto Junta de Freguesia como órgãos da Câmara que cuidam da limpeza do parque ou não tiveram conhecimento ou são cegos. Vou mais para a segunda sugestão.

Sabe-se que o parque, pelo menos aos fins-semana, é visitado e frequentado por um inúmero de pessoas. Quem o visita ou frequenta se for de fora de Freamunde deve dizer: que porcos ou desleixados. É o que me apetece dizer ao Presidente da Junta de Freguesia de Freamunde e Presidente da Câmara Municipal. Deixam lentamente morrer um ex-libris de Freamunde. Será que Freamunde tem em demasia ex-libris para deixar morrer?
Sabe-se também que é na época de verão que o parque é mais frequentado. Na de inverno pouca ou nenhuma ali vai. Portanto é nesta época em que nos encontramos que o parque devia esmerar pela limpeza do seu rio. Digo rio para não dizer com todo o parque.

Como disse no texto que escrevi há duas semanas que se houvesse perspicácia ou engenho o caudal que transporta a água até ao rio já estava limpo e com mais inclinação para a água não ficar ancorada entre um e outro. Por que não se limpa as plantas subaquáticas para estas não travar a corrente de água? Já referi que em Freamunde rareiam os ex-libris.
Por falar nisto vou referir parte de uma conversa que tive com um ilustre forasteiro mas que tem parte da sua vida dedicada a Freamunde. Até digo mais. Deve ter 50/50% de vivência entre Freamunde e a sua terra de origem.
Dizia ele: - Se em Freamunde aos Domingos fechasse a Igreja e acabasse o futebol ninguém saía à rua.
– Meditei e cheguei à conclusão que é uma realidade. Por isso senhores dos destinos de Freamunde pensem nisso. Acudam ao que deve ser acudido enquanto é tempo. Desmoronar é fácil. Difícil é construir ou manter.
Tenho dito.

domingo, 16 de setembro de 2018

Gostei do que vi:

Saí ao intervalo por indisposição, portanto a perder por uma bola zero. Mesmo assim gostei do futebol praticado tanto do S. C. Freamunde como do Rebordosa Atlético Clube – clube que fiz parte na sua apresentação em mil novecentos e sessenta e oito. Foi numa segunda-feira de Páscoa.

O senhor Domingos Barbosa, um Freamundense de alma e coração, natural de Rebordosa, foi dos primeiros directores do Rebordosa Atlético Clube, e por amor a um e outro clube, fez o convite para o S. C. Freamunde ali fazer o jogo de apresentação. Assim aconteceu. O S. C. Freamunde disputava o campeonato da 1ª divisão da Associação de Futebol do Porto.
Quanto ao S. C. Freamunde tem uma equipa jovem, pratica ou praticou um bom futebol, pena não ter uma ponta de lança “raçudo”, mas julgo que com o tempo isso vai acontecer.
Auguro um bom campeonato. Com isto não quero dizer que é para subir já este ano. Primeiro vamos estabilizar e depois pensar na subida. Sabemos o quanto foi difícil esta entrada. Mas com paciência lá vamos.
Um clube com oitenta e cinco tem as suas crises. Sou mais novo e sei o que são essas crises. Portanto paciência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Pelo contrário!

sábado, 15 de setembro de 2018

A regra infirma a excepção:


Na verdade, o processo "Marquês" nunca foi distribuído nem sorteado. A escolha do juiz, que deveria ter acontecido em 9 de setembro de 2014, não resultou de uma operação de distribuição que deveria ter sido por sorteio ou, como diz a lei, "realizada por meios electrónicos, os quais devem garantir aleatoriedade no resultado". Em conclusão: desde 9 de Setembro de 2014 que o processo "Marquês" não teve um juiz legal ou juiz natural. O Tribunal já comunicou também que nenhum juiz presidiu à dita "atribuição manual" e que tal intervenção terá ficado a cargo da escrivã de direito, Senhora Maria Teresa Santos. Espero que nos poupem ao debate sobre a responsabilidade da senhora escrivã, porque o que se passou com a denominada "atribuição manual" não foi uma falha, um descuido burocrático que se possa atribuir a um funcionário. Pelo contrário, o que se passou consistiu num ato intencional de escolha de um juiz, ludibriando a lei. Estamos para ver exatamente quem deu essas instruções, mas é importante que nada fique por dizer: o mais provável é que o processo tenha sido ilegalmente "avocado" e o principal suspeito é o Juiz Carlos Alexandre.


Sócrates

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As únicas pessoas a quem reconheço o direito a não mexerem uma palha na defesa pública do inocente cidadão Sócrates, inclusive o direito a julgarem-no moralmente na praça pública, são aquelas que se consideram lesadas com a “Operação Marquês” devido ao teor das suas relações privadas com Sócrates até então e as consequências que os actos do actual acusado vieram a ter para estes terceiros do círculo íntimo ou próximo (fosse política, pessoal e/ou socialmente). Há razões psicológicas que se sobrepõem à postura cívica dado estarmos perante acontecimentos traumáticos. Os restantes, se ficarem calados estarão a ser cúmplices de quem está a fazer deste processo uma homérica guerra política que implica a planeada e sistemática violação do Estado de direito, onde tal possa ser levado a cabo sem consequências para os responsáveis, de forma a montar um julgamento excepcional. Excepcional nisso de colectivamente se aceitar que Sócrates deva ser condenado antes de ser julgado, e julgado sem respeito absoluto pela Lei – assim obtendo o supremo troféu de impor o maior castigo possível a um estupendo e aterrorizador inimigo político e a quem ouse defendê-lo.

O Correio da Manhã, para usar aqui o arquivo mais extenso e fiel em Portugal a respeito da matéria, publicitou ao longo dos anos as suspeitas acusatórias maximalistas dos procuradores. Que acontece se juntarmos todas as capas produzidas pelo esgoto a céu aberto sobre a “Operação Marquês”? Acontece que não vamos encontrar uma única prova de corrupção. Ninguém sabe, no Ministério Público, como provar que uma certa quantidade de dinheiro na posse de Carlos Santos Silva tenha tido origem em actos governativos ilegais. Como não sabem, e como não podiam deixar de acusar Sócrates fosse do que fosse depois de terem posto a gigantesca máquina acusatória a funcionar, juntaram as teses todas e criaram um megaprocesso que, só para ser dilucidado em tribunal, já corresponde a uma forma de impor uma pena aos acusados mesmo que depois venham a ser ilibados parcial ou totalmente. Isto em si mesmo pode não ser uma violação do Estado de direito, embora tal dependa da interpretação que cada um faça desse edifício jurídico-político, mas quando se cola à evidência de termos tido um juiz de instrução que não se comportou como juiz dos direitos e garantias dos arguidos, antes como duplo e carrasco do MP, então a constatação de que o Estado de direito é neste processo uma fantochada tem de ser retirada por qualquer um que não abdique da sua decência como cidadão, como eleitor, como pagador de impostos, como mero anónimo que não admita ver a Justiça a ser usada para vinganças e perseguições políticas.

Aquando da condenação de Vara à pala do sucateiro, o próprio Marcelo Rebelo de Sousa considerou que a pena era muito exagerada face ao suposto delito em causa (delito esse também sem provas directas). Porém, ele não estava escandalizado, sequer preocupado. O fenómeno nascia, explicou, da maior importância que esse tipo de crimes estava a ter na comunicação social, logo os juízes iam atrás do que aparecia na imprensa e julgavam de acordo com o sentimento popular. A sua placidez opinativa compreende-se sem dificuldade dado estar na berlinda um socialista, ainda por cima já tendo anos como alvo de calúnias por conta do seu passado maculado por suspeitas graves e pela sua amizade com Sócrates. Não sabemos o que diria se a vítima da justiça jornaleira fosse alguém da sua cor política, amigo ou familiar. O que sabemos é que Marcelo sabe perfeitamente bem que uma campanha de assassinato de carácter, de suspeições, de difamações e de calúnias pode ter, com alto grau de probabilidade, influência nos juízes na altura de usarem o seu arbítrio para carimbarem um dado cidadão como inocente ou culpado, com esta pena ou com aquela. À luz do que temos visto, e continuamos a ver, acontecer no processo que envolve Sócrates, só por milagre se fará justiça na Justiça onde a parte mais importante do seu futuro será decidido.

A regra que enche por estes dias a retórica dos justiceiros é a de que todos são iguais perante a lei, que ninguém está acima da lei. A “Operação Marquês” revelou que a Justiça, a Assembleia da República, o Governo e o Presidente da República se podem aliar numa passividade cúmplice com aqueles que fizeram da excepcionalidade deste caso uma regra conhecida de antanho: os mais fortes são a lei.





Do blogue (Aspirina B)

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Joana Marques Vidal? Maria José Morgado? Vou ali e já venho. Deve haver alguém competente para o lugar e parece-me óbvio que nem uma nem outra o é:



Casos a arrastarem-se e arrastarem-se e arrastarem-se durante anos, incapacidade total para fixar e fazer cumprir prazos, sistemáticas fugas de informação e quebras do segredo de justiça, sistemas informáticos em que, pelos vistos, nem os responsáveis confiam, casos mediáticos em que o julgamento ocorre na praça pública ainda antes de haver acusação de facto -- estas, para mim, são algumas das características dominantes da era Joana Marques Vidal.

O meu ponto de vista é o de uma vulgar cidadã e, não obstante ter orientações naturais,
(ex: sou heterossexual, sou agnóstica, sou a favor da liberdade, da democracia, da igualdade de oportunidades, sou humanista, sou contra a exploração do homem pelo homem -- e, daqui por algum tempo, acrescentarei que também sou contra a exploração do homem pelos robots ou pela algoritmia decorrente da inteligência artificial -- etc.),
tento ser objectiva e imparcial na formulação das minhas opiniões. Por isso, não é porque o Marques Mendes, as Direitas-Unidas e sei lá quem mais defende que a Santa Mana Joana é a única alma à superfície da terra que pode desempenhar o cargo com competência que eu estou aqui a dizer que se vão catar.

Digo-o porque, do que conheço, o que há é uma mão cheia de argumentos para lhe dizer que adeusinho, bye-bye, que vá mas é fazer aquilo para que tem jeito. E se não souber o que é -- eu também não sei pelo que aqui não poderei deixar a dica -- pois que vá fazer testes psico-técnicos. Mas, se lhe der aquilo que é óbvio, que tem jeito é para o marketing auto-promocional, esqueça. Para esse peditório o país já deu. Já está santificada em vida sem nunca ter feito qualquer milagre. Que quer mais? Pense noutra, nessa não. Ou, se já não estiver para ir em busca do seu verdadeiro eu, pois que veja se o Costa muda a cena da idade da reforma e do diabo do factor da sustentabilidade e vá mas é curtir a vidinha.


Em alternativa à Sta Mana, há quem se lembre da Maria José Morgado. Outro susto. Falando sempre num registo encriptado, lançando insinuações contra incertos, como se tivesse muita sujeira escondida na manga e, a todo o momento, pudesse pôr a boca no trombone, dali nunca se ouviu nad que se pudesse aproveitar. Aridez total. Quem a oiça dirá que Portugal é um antro de corrupção, de sacanagem e de total ladroagem e que nada há a fazer pois, em cima disto, existe um polvo de interesses políticos, futebolísticos e, quiçá, religiosos, um gigantesco e sinistro polvo que tudo abafa, que tudo compra. E soluçoes para isto, ó Senhora Dona Magistrada? - dá vontade de lhe perguntar. Mas, se alguém lhe perguntar isto, ela certamente fará um daqueles seus sorrisos que insinuam secretas podridões e dará a entender que não valerá a pena sequer tentar. E, no meio daquelas afirmações redondas mas sempre atiradas com uma assertividade extraordinária, parece perceber-se-lhe a insinuação de que o que é preciso é uma justiça musculada, atalhar a eito, passar por cima dos direitos e liberdades individuais. E, inevitavelmente, somos levados a desconfiar de que naquele peito ginasticado pulsa um coração que, mesmo que de forma não confessa, é ainda um fiel devoto da pura e dura linha mrpp.

Por isso, por favor: a Maria José Morgado também não.

Mas não há crise, o povo é sereno: sendo Portugal um país de mentes brilhantes, algum magistrado capaz haverá de haver que consiga exercer a função de Procurador-Geral com denodo e competência, voltanto a devolver a confiança aos portugueses. Tenhamos fé.

Do blogue (Um jeito manso)

sábado, 8 de setembro de 2018

Nos idos do verão:

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/09/2018)
MST5
(O Miguel vem em grande forma. O bronze da Meia Praia fez-lhe bem. Eucaliptos e pedófilos, a mesma corja, é o tema. Denominador comum entre ambas as pragas? O fogo do inferno: os infernos de fogo que os eucaliptos alimentam e onde merece ser incinerada a cáfila abusadora das crianças e jovens à sua guarda.
Comentário da Estátua, 08/09/2018) 

Das areias da Meia Praia, vi o fogo começar na Serra de Monchique. Já se tornou um hábito estar sempre a olhar para a serra com medo que um fogo comece. Porém, não me assustou muito, pois, apesar do calor intenso, estava vento sul e com vento sul não mexe uma palha lá em cima. Isso, mais a avalanche de meios terrestres e aéreos imediatamente lançados no ataque ao incêndio, logo elogiados pelo Presidente e que há meses nos vinham sendo cantados em ladainha pelo ministro Eduardo Cabrita como estando disponíveis até para os conhecidos incêndios de Natal, fazia prever que, no máximo de 24 horas o fogo estaria extinto. Mas, não: foram três dias seguidos sem vento desaproveitados, até que aquilo que todos os que conhecem a zona temiam que acontecesse, aconteceu: entrou o vento norte e tudo fugiu de controlo. Monchique ardeu até ao fim, durante oito dias e 26 mil hectares. Outra vez. Um habitual rigoroso inquérito vai apurar como é que tal foi possível e eu, que não percebo nada do assunto, não posso ajudar às conclusões. Excepto numa coisa: por favor, não concluam que não houve incompetência no comando.
Por favor, também não concluam que aquele braseiro demencial não foi tragicamente potenciado pela caixa de fósforos gigantesca em que transformaram a outrora deslumbrante Serra de Monchique. 74% da área florestal do concelho de Monchique são ocupados pelos queridos eucaliptos: lá em cima não corre um fio de água, não se avista um animal bravio, não se escuta um pássaro. Dentro de oito anos serão 84% de eucaliptal e voltará a arder tudo outra vez. É um jogo de roleta: se por acaso não arder, é fortuna garantida para quem os plantou; se arder, o prejuízo é todo dos contribuintes e o lucro é dos que fornecem os meios de combate aos incêndios. Em Maio passado, porém, o presidente da Câmara de Monchique, Rui André, mostrava-se tranquilo com a situação: as plantações de eucaliptos estavam “ordenadas e vigiadas”, os caminhos limpos e os aceiros feitos. “Já são muitos anos a apagar fogos!”, concluía ele, com um optimismo cínico que se viria a revelar mórbido e que num país onde a responsabilidade política não fosse uma palavra vã o deveria ter levado a demitir-se no dia seguinte ao fogo ter sido extinto.

2 Em Monchique, ardeu sobretudo o eucaliptal da Navigator/Soporcel. E, enquanto os eucaliptos alastravam o fogo à serra, destruíam casas e só por sorte e arte dos bombeiros não mataram ninguém, o seu dono passava férias em Ibiza, a bordo do seu iate, onde viria a morrer de ataque cardíaco. O mesmo Presidente Marcelo, que passou o Verão a lembrar e a homenagear as vítimas dos incêndios de 2017 e a preocupar-se com o incêndio de Monchique, apressou-se a lamentar a morte de um “grande industrial português”. E o jornal “Público” dedicou-lhe a capa e as primeiras quatro páginas, em homenagem ao “presidente do maior grupo industrial de base nacional” e “o homem que não se deixou enganar por Ricardo Salgado” (duas verdades inquestionáveis). Porém, nem uma linha para informar os leitores distraídos ou recordar aos outros que o tal “maior grupo industrial português”, além da Secil e daquela fábrica de cimento que é uma ferida terceiro-mundista na Serra da Arrábida, assenta basicamente na fileira predadora das celuloses — responsável pela infertilidade das terras, pelo despovoamento do interior, pela dimensão dos incêndios, pela poluição dos rios e pela destruição inacreditável da paisagem de Portugal a um ritmo avassalador. E cujas árvores, num processo já incontrolável, renascem das cinzas e espalham as suas sementes mesmo para onde ninguém as planta e ninguém as deseja. Não fosse um texto de elogio a Pedro Queiroz Pereira da autoria do engenheiro João Soares, um crónico defensor do eucaliptal, e nem se saberia a que actividade se dedicava aquele. Desse texto, aliás, retive uma passagem em que João Soares relata uma conversa que terá tido com Queiroz Pereira e em que este terá desabafado que quando abria um jornal e se via “acusado de crimes ambientais”, lhe dava “vontade de vender tudo e ir-me embora desta terra”. O problema está em que não há muitos países — aliás, nenhum país do primeiro mundo, que tenha, sequer em termos absolutos, a quantidade de eucaliptos que Portugal tem e consente. Talvez por isso, a Navigator/Soporcel procure outras paragens longe do primeiro mundo. Uma arrepiante reportagem da autoria de Sofia da Palma Rodrigues, curiosamente publicada no mesmo jornal “Público” no dia da morte de Pedro Queiroz Pereira, revelava como é que, ao abrigo de um programa lançado pelo G7 para desenvolver a agricultura tradicional em África, e através de um processo no mínimo nebuloso, a Navigator/Soporcel se apoderou de 356 mil hectares (três vezes a área que explora em Portugal) das terras agrícolas mais férteis das províncias de Manica e Zambézia, em Moçambique, para as forrar de eucaliptos, afastando delas os agricultores locais. Pois é, as coisas são como são. Não se consegue ter sol no eucaliptal e gente nos campos e chuva nos incêndios.

3  Em directo na rádio France-Inter, o ministro do Ambiente francês, Nicholas Hulot, demitiu-se sem aviso prévio, dizendo não conseguir mentir mais a si mesmo. Não, nem Macron consegue fazer cumprir em França as metas da Cimeira de Paris sobre as emissões de CO2: as pressões da indústria são mais fortes do que quaisquer promessas. Na Alemanha, uma comissão independente concluiu aquilo que qualquer condutor já sabia: que os números de consumo dos carros são notavelmente desinflacionados pelos construtores. Na Austrália, um dos países do mundo mais expostos às alterações climáticas, de ano para ano, o país vive incêndios dantescos, viu a Grande Barreira de Coral diminuir para metade e atravessa actualmente a maior seca de que há registos. Signatária do Acordo de Paris, a Austrália é o 4º maior produtor de carvão do mundo e o 16º maior poluente da atmosfera. Na terceira semana de Agosto, o primeiro-ministro, Malcolm Turnbull, foi derrubado por um golpe interno do seu partido, quando ensaiou uma tímida reforma destinada a controlar a emissão de gazes com efeito de estufa, dando cumprimento aos Acordos de Paris. Por trás do golpe estavam as grandes empresas produtoras de carvão, de petróleo e de gás e a maioria da imprensa, dominada pelo império de Rupert Murdoch.
As lições a extrair daqui são simples e assustadoras. A indústria, as grandes empresas, nunca sacrificarão os lucros dos accionistas a causas que tenham que ver com o bem comum. Pouco lhes importam os acordos ou tratados que os governos assinem ou as leis que aprovem: elas têm os governantes nas mãos, sem precisarem sequer de chegar ao extremo de os corromperem; basta assustá-los com a deslocalização, com a perda de impostos, com as consequências económicas, reflectidas em eleições. Restaria a imprensa independente para actuar em nome do interesse dos cidadãos. Mas, para se manter independente, para subsistir, a imprensa precisa de leitores e de anunciantes. Desgraçadamente, porém, os leitores estão a fugir para as redes sociais (alimentadas, irresponsável ou deliberadamente, pelos próprios políticos), e os anunciantes são as mesmas grandes empresas, interessadas em que certas notícias não existam. Num futuro não muito longínquo, alguém contará como é que sucessivas e coincidentes mortes desaguaram numa tragédia global.
4  É provável que o arcebispo Vigano tenha razão na acusação que faz ao Papa Francisco de ter encoberto os abusos sexuais do cardeal americano McCarrick. Mas é provável também que ao pedir a renúncia do Papa, Vigano, ligado aos sectores mais conservadores da Igreja, não seja movido por boas, mas por más razões. E que Francisco se tenha calado porque percebeu que a dimensão do escândalo era de tal forma que toda a Igreja Católica poderia desabar se a verdade inteira fosse conhecida. Mas agora é tarde demais.
O que os novos escândalos da Pensilvânia e da Irlanda puseram a nu de forma cristalina é que durante décadas ou séculos — talvez desde sempre — os homens de Deus se dedicaram à pedofilia sobre as crianças e os jovens que lhes eram confiados, com total impunidade e conivência dos seus superiores. Que Satanás tomou conta do proclamado Reino de Deus e que todas as virtudes santas pregadas pelos seus pastores se traduziram na mais suja e cobarde hipocrisia muros adentro. Não há perdão algum, só nojo.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Comportamento exemplar de Joana Marques Vidal seria reafirmar o que já disse:

Em Março de 2016, em Cuba, a actual Procuradora-Geral da República declarou ser o mandato de PGR único. De facto, a duração prevista pela Constituição é de seis anos, duração mais longa do que o habitual em cargos institucionais para evitar mudanças demasiado precoces ou permanências demasiado prolongadas e permitir a necessária rotação. A ministra da Justiça, tendo ouvido essas declarações, corroborou-as uns tempos depois, sujeitando-se a uma chuva de críticas absolutamente estúpidas. As permanências excessivas nestes cargos são forçosamente fonte de instabilidade, são anti-dinâmicas, propícias a compadrios e prejudiciais à isenção. Além de contrárias ao espírito da Constituição. Dois mandatos significam doze anos. É muito ano. Porquê, então, esta febre e paixão joaninas que atacaram agora toda a direita portuguesa, ainda por cima quando o próprio sindicato do MP se mostra favorável ao mandato único (e olha quem)? Em todos os jornais, revistas, televisões e rádios, a recondução da PGR é claramente o osso que toda a direita abocanha por estes dias com desespero.

A quem deu caça esta mulher tão apreciada por toda a direita? A todos os corruptos? A todo o político que mexe, como gostam os populistas? Nem por isso. Mediatizou a “caça”, isso sim. Tabloidizou a justiça, isso é seguro. Reinstituiu o pelourinho, é a verdade. Será disso que eles gostam? O certo é que, apesar do alarido, não há conhecimento de condenações a penas de prisão em nenhuma das grandes operações lançadas no seu mandato. Nem na Operação Fizz, uma vergonha que envolvia um ex-procurador. Aliás, ainda resta saber, apesar do showdas detenções, se há ou não corruptos no principal processo – o Marquês – instaurado da maneira que sabemos no mandato de Joana.

Os factos são que esta procuradora-geral foi a que não só não controlou as fugas de informação escandalosas na Operação Marquês com origem na sua instituição, como também falhou rotundamente na instauração de vários inquéritos internos às ditas fugas (consta que 111 – ver aqui) já que ninguém conhece deles o mínimo resultado e sobretudo a mínima consequência, nada disto lhe tirando um minuto sequer de sono, apesar do descrédito que sobre ela paira. Mais valia não instaurar inquérito nenhum. Foi ela que assistiu impávida (ou autorizou ou não proibiu ou não puniu) à transmissão pública dos interrogatórios aos arguidos, testemunhas e pessoas lateralmente envolvidas no referido processo, na prática comprazendo-se ou alheando-se de responsabilidades perante uma situação tão aviltante e repugnante e totalmente inédita. Além de ilegal. Foi ela que, em Novembro de 2017, ponderou reabrir o processo Tecnoforma (que envolvia Miguel Relvas e Passos Coelho) após a investigação da Comissão Europeia ter detectado fraudes graves (de milhões) na utilização de dinheiros comunitários, mas se esqueceu do assunto logo no dia seguinte e para todo o sempre. Foi ela que arquivou o processo a Dias Loureiro. Foi ela que liderou aquela ridícula operação de busca ao Ministério das Finanças, porque, crime terrível que implicava de imediato um assalto policial aos gabinetes, o ministro tinha ido assistir a um jogo do Benfica em lugar mais protegido e confortável do que o terceiro anel do estádio da Luz. Mais actuações extraordinariamente louváveis como estas todos por aqui conhecerão, mas não vou mais longe.

Para a direita toda, que anda por onde pode a exigir a recondução desta senhora como se isso fosse uma questão de vida ou de morte, revelando que a mana Marques Vidal é, de facto, o seu braço armado na Justiça contra os socialistas, o grande, enorme ponto de interesse do seu mandato foi, na realidade, a humilhação infligida ao odiado Sócrates (muito mais do que a de Ricardo Salgado) – desde a detenção, à prisão, aos interrogatórios, ao julgamento via Correio da Manhã e tudo o mais que fez as delícias dos sabujos que adoram o pelourinho para os seus adversários. Só por isso, todos os dias estas pessoas e o Marques Mendes erguem a Joana Marques Vidal uma estátua virtual de proporções gigantescas e elucidativas, perante a qual se ajoelham, por esse feito absolutamente “heroico” (as aspas devem-se à inexistência de qualquer dificuldade ou obstáculo à façanha) e nunca visto. Lembro que a direita viveu o seu  tempo áureo quando dispôs de um Presidente (Cavaco), um primeiro-ministro (Passos) e uma PGR – um trio deprimente – à frente dos principais órgãos do Estado totalmente consonantes com a sua estratégia e alvos. A reintrodução de julgamentos à maneira medieval fez-se com um estalar de dedos. Mas só alguns foram assim julgados, claro.

Voltando ao meu ponto: se Joana Marques Vidal quisesse provar de uma vez por todas a sua total independência (ganhando a minha admiração) e arrumar também de vez com os articulistas/propagandistas da direita que desejam às escâncaras politizar a Justiça e fazer luta política agarrando-se a ela (aqui para nós, à falta de melhor), enquanto escrevem nos jornais e debitam nas televisões, viria a público dizer simplesmente que procurou cumprir com dignidade as suas funções, que espera ter lançado as bases para isto e para aquilo, mas que reafirma que considera o seu mandato único, como aliás foram os de todos os seus antecessores, com excepção de Cunha Rodrigues (de 1984 a 2000; outros tempos e uma excepção em mais de 80 anos). Suspeito, porém, que não o fará. Suspeito que ficará calada enquanto a direita a transforma na sua mais importante ou única bandeira. Possivelmente o Tavares caluniador do Público já a fez inchar de tal maneira com a campanha que pôs em marcha a seu favor (dia sim, dia não) que a vaidade lhe subirá à cabeça e Joana acabará por decidir dar o dito por não dito, mandar o tal de mandato único às urtigas, manobrar pela sua própria recondução e entrar na luta política. Entrar ou continuar. Se Costa e Marcelo a deixarem, está bom de ver. Estou curiosa por saber o que cozinham. Atendendo a que Joana já disse o que pensava sobre o assunto, vejo muito a custo Costa e Marcelo a pedirem-lhe que fique.

Por Penépole 
No blogue (Aspirina B)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Automotoras com 50 anos? Comissões à Vista:

(Dieter Dellinger, 02/09/2018)
comboio
O jornal “dinheiro vivo ou morto?” diz que a CP funciona com automotoras com 50 anos e que eu saiba ninguém protestou quando tinham 40 ou 45 anos.
Um amigo entendido nestas coisas diz que as 57 unidades amarelas aqui retratadas datam de 2003 e as verdades são um pouco mais recentes, adquiridas pelo governo Sócrates e as com 50 anos de idade já há muito que foram para a sucata.
Este combate da direita pelos comboios tem uma razão que nenhum jornalista televisivo disse ainda. É que a partir de 1 de Janeiro de 2019 as linhas de comboio serão abertas a qualquer operador certificado, quer dizer, privatizáveis na base de um contrato de serviço público com o governo para que mantenha a atividade comercial corrente.
Esta linguagem tem de ser traduzida para português corrente e quer dizer: Os privados podem aparecer com comboios e cobrarem as viagens ao valor que entenderem e, naturalmente muito mais alto, devendo o Estado (Contribuintes) pagar a diferença. Será uma espécie de Swaps impostos por Bruxelas.
No imediato, a abertura não será total, podendo o Estado realizar com a CP contratos iguais ao que realizaria com empresas privadas, mas só entre 2019 e 2023.
O ou os contratos serão feitos com a AMT-Autoridade da Mobilidade e dos Transportes que vai ganhar novas competências e terão de realizar contratos como se a CP fosse já privada.
Trata-se pois do 4º Pacote Ferroviário da União Europeia em que a Cristas e o Rui Rio esfregam as mãos de contentes porque esperam que dos contratos com privados venham boas comissões para as suas contas secretas no Panamá ou em qualquer offshore.
A inscrições estão abertas, mas apenas a empresa Arriva, cujo capital pertence ao “Deutsche Bank”, mundialmente conhecido pela sua desonestidade e pelas multas astronómicas que tem de pagar nos EUA e noutros países, é que mostrou interesse na ligação entre o Porto e a Galiza.
A direita não dá ponto sem nó. O falatório sobre os comboios surge para meterem dinheiro ao bolso e favorecerem a entrega de mais um ativo estratégico da PÁTRIA a estrangeiros porque esses é que podem transferir facilmente dinheiros para as contas secretas de Rui Rio, Cristas e sei lá quem mais.
Se Rui Rio fosse um homem honesto já deveria ter dito que não quer a exploração ferroviária entregue a estrangeiros, mas sim à CP como sempre foi. Mas, o gajo escondeu essa da entrada em vigor do 4º Pacote Ferroviário de Bruxelas. Devemos divulgar isto o mais possível.
Claro que o BE e o PCP também nada dizem porque querem conquistar com dinheiro um eleitorado de professores e funcionários públicos, pelo que devem estar dispostos a aceitar em troca a privatização da PÁTRIA.
NADA mais deve ser entregue a ESTRANGEIROS. A PÁTRIA em Primeiro LUGAR. Viva PORTUGAL, fora Rui Rio e Cristas e outros traidores.
Do blogue (Estátua de Sal)