segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Boa Cama Boa Mesa:

Capão `a Freamunde.

sábado, 28 de novembro de 2015

A minha amiga é negra:

A minha amiga é negra. Ainda há pouco eu não me lembraria de o dizer. Nesta semana, ela obrigou-me. Claro, não foi do género "olha, escreve lá no teu jornal que sou negra". Foi assim, ela estava a fazer uma coisa solene e ficou de cara levantada - dizia uma jura pública - olhando-nos, olhos nos olhos, a mim e a vocês também. Eu disse-me: está bem, Francisca, eu digo.

Ao João, seu irmão, ele morreu há dois anos, eu até já chamei "preto". Ele, o mais cosmopolita dos meus amigos, apareceu-me com uns sapatos a que os americanos chamam spectators. E chamam bem, porque, de couro negro ou castanho e pala branca, os spectators atraem a atenção e só ficam bem a quem os ousa usar. Invejo-os, porque me sei disléxico de alfaiataria. Foi o que talvez me tenha levado a dizer ao João: "Pareces um preto de Nova Orleães..." Ele gostou, olhou para os sapatos e pôs-me a mão no ombro: "São bonitos, não são?" Acho que se permitiu a superioridade, a mão no ombro, porque se aproveitou da minha nítida desvantagem no vestir. Geralmente os irmãos Van Dunem tratam-me com menos sobranceria. Nem tanto por mim, suspeito, mas porque eu fui "o amigo do Zé", o mais velho dos irmãos.

Eu e o José, jovens, íamos levar doces aos presos nacionalistas, 1968, 1969... Os guardas faziam diferença entre o branco e o preto, desprezavam este e insultavam aquele. Nós regressávamos ao nosso bairro com aquela noção de irmanados que os amigos só criam na infância ou na adolescência. O ter de ser cumprido, a nossa areia vermelha aos pés, o futuro ali à mão, e nem orgulhosos íamos, só juntos. Mas não era bem assim. O nosso risco era igual - e estávamos de peito feito - mas o risco dos nossos não era igual. Em casa dele tinha ficado a dona Antónia, a mãe do Zé, ela é que fazia os bolos e nos mandava entregar. Ela sabia o risco do seu menino e do amigo. Eu partiria para o exílio pouco depois e o Zé seria preso no campo de São Nicolau. Ela não sabia ainda é que a espiral acabaria trágica, que o filho seria assassinado, já pés firmes sobre a praia sonhada, em 1977.

A dona Antónia vive em Lisboa, tem 93 anos. Ah, com ela eu nunca me permitiria a palavra "negra", nem agora, quando a palavra foi conquistada pela Francisca. Não que a ofendesse, claro. Ela era, assumia e praticava aquilo que era na nossa cidade - negra, o que não era mera circunstância, era condição. Mas para mim a dona Antónia é a senhora, ponto. Às vezes, agora, em Lisboa, quando ia recordar com o João ou falar com a Francisca, eu puxava pelo antigamente dela. Eu deixava ir a conversa, como a dona Antónia a faz, com silêncios, olhos tristes e boca amarga, mas estava sempre a vê-la a entregar-nos o embrulho dos bolos para levarmos à prisão.

O pai da família foi sempre sóbrio comigo. Mateus van Dunem passava na rua com o irmão, ambos silenciosos, ambos elegantes, vestidos à funcionário, com gravata, o que era raro no bairro. Eles eram filhos duma derrota - negros luandenses dos anos 1940, 50 e 60. Eu explico o que lhes aconteceu: a República. A República burra, como tantas vezes acontece às coisas boas em Portugal. O alto-comissário NORTON de Matos decidiu um erro: substituir a elite angolana, os filhos da terra, os nativistas, os angolenses, por gente ida de Portugal. Não percebeu que o que havia para perpetuar de Portugal em Angola era a gente com quem Portugal se tinha cruzado.

Nas décadas de 1910 e 20, Manuel Pereira dos Santos van Dunem, o pai dos dois irmãos que eu veria juntos tantos anos depois, o avô de Francisca, foi perseguido, preso e desapossado dos bens. Aconteceu o mesmo a outros dirigentes das associações, como a Liga Angolana, encerrada. O jornal dele, O Angolense, foi fechado, tal como a sua tipografia Mamã Tita. Aos filhos de toda essa geração esperariam quase só lugares subalternos de funcionários. Abandonavam as casas tradicionais da Cidade Alta e Ingombotas e foram, afastando-se para os bairros periféricos, como o nosso bairro, o meu e do Zé, São Paulo.

A minha amiga chegou jovem a Portugal, a sua universidade foi a de Lisboa, casou com um açoriano, pariu um português, trabalhou em Portugal, tornou-se portuguesa e continuou negra. Nos anos 1930, a geração do avô de Francisca pagou para que se erigisse um monumento, em Luanda, a Luís Lopes de Sequeira, o crioulo. No século XVII, esse mulato derrotou os reinos de então, numa Angola que não existia. Lopes de Sequeira, cabo-de-guerra, servia Portugal e acabou por fazer Angola, porque sem ele provavelmente ela não o seria. A história capricha nos seus caminhos e da importância destes dirá o que vier.


Ah, agora compreendo... O olhar de Francisca não queria que eu dissesse que ela era negra, mas que contasse tudo isto.

Ferreira Fernandes
No DN

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Uma ministra para a história:

Só quem ache normal que nunca tivesse existido em Portugal um ministro negro não se terá emocionado ao ver ontem Francisca van Dunem tomar posse.

Num país no qual uma importante parte da população é negra, a renitente invisibilidade desta em cargos de representação política e de primeira linha mediática não pode ser considerada "natural". A não ser que se considere que essas pessoas têm "naturalmente" menos capacidades - como, pelos vistos, se considera que as mulheres têm "naturalmente" menos capacidades do que os homens e daí, apesar de estarem em maioria em universidades e doutoramentos, é "natural" que quando se forma um governo seja "tão difícil" encontrá-las "competentes". E se chegue mesmo a dizer que fazer um governo paritário "só por causa da igualdade" implicaria "abdicar do critério da competência".

Grande parte destas coisas que se dizem para justificar a invisibilidade e a exclusão de mulheres e outros grupos discriminados são, em muitos casos sem que quem as diz tenha disso consciência (para tal teria de pensar um bocado no assunto), simplesmente insultuosas. Mas estar imerso no insulto, mesmo como objeto dele, retira-nos às vezes a capacidade de perceber o quanto ele nos pesa. Daí que ontem me tenha surpreendido a comoção com que vi Van Dunem, com quem nunca na vida falei, a avançar, de forma que me pareceu particularmente altiva (imperial, apetece dizer), para a declaração e a assinatura. Tive a noção de estar a assistir a um momento histórico - quase tão importante, à nossa dimensão, como o foi a eleição de Obama nos EUA. E creio que também Van Dunem o sentiu - assim interpretei a maneira como, de olhos levantados, recitou a frase ritual.


E se assim o senti, suponho que os negros portugueses - essa categoria constitucionalmente interdita, já que a lei fundamental proíbe a anotação ou a contabilidade nessa matéria - o terão sentido também. Mas, li ontem várias vezes e vindo de várias vozes, falar na cor de Van Dunem é errado e reforça a discriminação: o que interessa é a qualificação para o cargo. O mesmo foi dito em relação aos secretários de Estado Ana Sofia Antunes e Carlos Miguel, ela cega e ele de ascendência cigana. Percebo a preocupação, mas não CONCORDO. Sim, deveria ser natural e normal ver negros no governo, como deficientes e ciganos; deveria ser normal termos muitas mulheres nos executivos. Mas não tem sido; não é. Daí que faça sentido relevar quando sucede; daí que seja tristemente inevitável contar o número de mulheres. Sabendo distinguir entre a absoluta grosseria de um Correio da Manhã que titula "Costa chama cega e cigano para governo", reduzindo as pessoas a uma classificação puramente discriminatória e até chocarreira, e os jornais que fizeram jornalismo. E fazer jornalismo é dizer, proclamar, festejar isto: ontem fez-se história. E foi muito bom.

Fernanda Câncio
No DN

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

José Sócrates, ex-primeiro-ministro:

"No fundo, o que o senhor Presidente da República quer fazer e está a fazer é sublinhar a anormalidade desta solução política, mostrar que ela é muito anormal, que ela é muito estranha, para com isso construir as bases da campanha eleitoral que a direita vai fazer, ou melhor, as bases da campanha eleitoral que a direita um dia fará contra o futuro Governo que ainda não o é. Nunca vi um Presidente terminar tão só.
A intenção do senhor Presidente da República com esta demora, com estas audições, não é outra que não seja tentar desacreditar e enfraquecer a solução política de Governo que é a única solução política de que o país dispõe.  
Verdadeiramente Cavaco Silva não precisa de ser aconselhado e não está a pensar em nada. Se quisesse seriamente ser aconselhado, convocava o Conselho de Estado.
Mas, o senhor Presidente da República prefere convocar a Associação das Empresas Familiares, cujo presidente tem muito mais ar de agitador político do que propriamente de um representante corporativo que representa interesses legítimos. Cavaco Silva apenas chama as pessoas a Belém para que (...) falem nas televisões dizendo aquilo que ele quer que (...) digam. 
Afinal de contas, deu-lhe tanto trabalho pôr lá a direita em 2011 que agora lhe custa o trabalho de tirar de lá a direita e pôr de novo a esquerda em 2015. Verdadeiramente, as soluções políticas ou o comportamento com base no ressentimento, é um comportamento destinado sempre ao falhanço. 
Recordo o que ouvi muito injustamente a direita dizer em 2011, quando se referia aos anos em que chefiei o Governo como uma década perdida. Talvez seja altura de dizer a essa direita que verdadeiramente o que nós tivemos foi uma década perdida para a Presidência da República (...). 
Essa foi a instituição que mais faltou ao país, a instituição [de] que o país precisa e que faltou, que faltou nos momentos críticos, nos momentos chave e está a faltar, porque um Presidente quando se comporta com base no ressentimento, isso leva sempre ao seu isolamento."

22 de Novembro de 2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Comparar o incomparável:

É o que quer fazer Cavaco Silva, não o intitulo Presidente da República, porque para isso precisava de despir a camisola do PSD. Por isso o trato por Cavaco Silva, porque acho que é o pior Presidente da República, da República Portuguesa. Atrás, mas muito atrás, de Américo Tomás. Ao menos Américo Tomás tinha atitudes e frases mais certeiras que Cavaco Silva, tal como: "esta é a primeira vez desde da última que cá estive". Nada mais certeiro. Contra factos não há argumentos.
Cavaco Silva tem saídas pirosas mas de concreto não dizem nada aos portugueses. Só loadas e de pouca utilidade. Ainda ontem voltou a referir que será melhor um governo de gestão que um do Partido Socialista com o apoio do BE, PCP e Verdes. Como o pode dizer ou afirmar se Portugal nunca passou por essa experiência!
E, esta de chamar os banqueiros, para os ouvir, dá para se ver como Cavaco Silva é parcial e não tem como dizia todos os cenários estudados. Será que o voto dos banqueiros vale mais que o meu!
Depois vem dizer para os portugueses se manterem calmos e serenos porque as finanças estão a abarrotar de euros. Como nos podemos acreditar se há um ano e pico também creditou o Banco Bes e passados uns meses deu-se o colapso do mesmo.
Cavaco Silva não deve andar de bem com a sua consciência. Noutros tempos qualquer um que fosse contra as suas ideias era logo marginalizado. Hoje não. Quanto a mim, Passos Coelho tem-no na "mão". Senão Cavaco Silva não se prestava a figuras tristes. Diz e desdiz-se como a velocidade do som.
Então não compreende que a situação actual do País é muito diferente da de mil novecentos e oitenta e sete! É que em mil novecentos e oitenta e sete a Assembleia da República estava demitida pelo Presidente da República. Hoje não se passa o mesmo. O governo nomeado por Cavaco Silva foi censurado pela maioria dos deputados da Assembleia da República. Portanto foi demitido pelos partidos adversos à coligação PAF. E, até o PAN também votou contra o governo do PSD e CDS. Assim se vê que Passos Coelho nem o único deputado do PAN convenceu.
Quando assim é porque Cavaco Silva demora a dar posse a um governo liderado por António Costa. Tem medo do desmaio! Deixe-se disso Cavaco Silva.
O País está acima dos seus interesses. Olhe que com estas hesitações um dia mais tarde se isto der para o torto o senhor pode ser julgado por alta traição à pátria. Ganhe juízo.     

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Governo de Gestão:

Cavaco Silva numa resposta aos jornalistas na sua visita à Madeira disse que quando era Primeiro-ministro esteve com o seu governo em gestão durante cinco meses. Foi em mil novecentos e oitenta e sete que o Presidente da República na altura, Mário Soares, dissolveu a Assembleia de República e deixou o governo de Cavaco Silva em gestão. Só que nessa altura a situação do País era diferente da de hoje. Também fiquei admirado que os jornalistas que entrevistavam Cavaco Silva não lhe recordassem que a Assembleia da República estava demitida. Coisa contrária da de hoje.
A minha admiração não é tanta pois sei que a comunicação social é toda afecta a este governo. Prova disso está nas capas de todos os jornais e nenhum fazer referência a esse facto.
Senão vejamos. O que vai fazer Cavaco Silva com a Assembleia da República? Fechá-la! E com os deputados? Mandá-los para o desemprego! Não pode porque foram eleitos como Cavaco Silva o foi. Assim sendo não tem competência para isso. Se fosse há uns meses atrás tinha.
Assinaram um contrato de trabalho e assim alguém tem de lhes pagar. Cavaco Silva está na disposição de lhes pagar? Não me convenço. Pois não há muito disse que não passava de um teso. Se se lembram até usou a palavra que não passava de um reformado assim como a sua esposa e que não ganhavam para os gastos.
Também será que os deputados, pelo menos os do acordo da esquerda, vão deixar passar isto sem delongas? É evidente que não. Dos da coligação PAF não digo que sim nem que não.
Portanto revejo maus tempos para a democracia portuguesa e para a estabilidade social. Porque as Centrais Sindicais assim como a Sociedade Civil não vão deixar passar isto sem contestação.
Cavaco Silva fez as contas e não tirou as provas. E... vão ser amargas. Depois não sabe o que diz. Quando se refere a mil novecentos e oitenta e sete e dois mil e nove, como disse aos jornalistas, depois vêm os seus assessores dizerem que se estava a referir a dois mil e quatro. Mais tarde vieram os mesmos dizer que Cavaco Silva se referia a dois mil e nove. Como nos devemos acreditar na Presidência da República se não sabem o que andam a fazer. Parece que andam todos ébrios.
Cavaco Silva neste pouco tempo que lhe resta podia dar outra imagem de si próprio. Assim anda a gozar com o pagode.