domingo, 18 de outubro de 2015

Sábias palavras:


sábado, 10 de outubro de 2015

Políticos a fazer política, nunca esperei:

No domingo passado, o país teve uma surpresa. Mas permitam-me lembrar o contexto que antecipou o abalo. Durante semanas, as sondagens e as conversas tinham-nos levado a uma convicção geral: a coligação PAF ia ganhar com maioria relativa. Repito, a 3 de outubro o que se sabia era o seguinte: muitíssimo provavelmente, ganhava o PAF sem maioria absoluta. Era o que diziam as sondagens - repetidamente alargando a vantagem, mas com limites prudentes - e concordavam os cidadãos, dando conta da campanha de uns, sem percalços e crucifixo no bolso, e a de outros, com Carlos do Carmo a falar. No dia 3, pois, véspera devotada à reflexão do voto, os portugueses reconheciam essa inevitabilidade. Porém, às 20.00, o país foi assombrado: a PAF ganhou e ganhou sem atingir a maioria absoluta!
Hão de concordar que é difícil gerir um país onde acontece o que se espera. Os alentejanos têm aquele provérbio "chuva em novembro, Natal em dezembro", mas suspeito que o que eles, e os portugueses em geral, esperam, mesmo, é a Páscoa. No dia das eleições foi o coelhinho que nos surgiu no presépio. Para espanto de todos que haviam passado as semanas anteriores a dizer exatamente isso. Enfim, logo no dia 4, Passos foi entronizado. Esquecendo-se de que o dia seguinte era 5 de outubro e que há datas que podem tornar-se vingativas, sobretudo quando foram degradadas a não feriado.
Os portugueses vinham de um mandato governamental em que se passou todo o contrário do que se prometera na campanha anterior. Desta vez, a campanha eleitoral tinha indiciado um certo e determinado resultado e foi, pois, com o pasmo nacional que a CNE confirmou que sim, era mesmo esse o resultado. Incrível! O primeiro caso, de não cumprimento das promessas, os portugueses aceitaram com naturalidade. Já no segundo, espantaram-se quando lhes aconteceu aquilo de que estavam carecas de saber que ia acontecer. Ora, entre nós, quando as coisas se passam de forma tão insólita (porque esperada), é natural que descambem em situações cada vez mais naturais. Ou, se quiserem, surpreendentes.
Às primeiras horas, tudo se passou como é costume. Tendo o PSD e o CDS votos para governar relativamente, preparavam-se para governar absolutamente. O primeiro sinal de qualquer coisa de estranho surgiu quando o Presidente Cavaco Silva foi alertado pela sua assessora mais de fiar (uma calculadora Texas Instruments). De 116 deputados para governar de vento à popa, encontraram-se garantidos só 104, aos quais se podia, na melhor das hipóteses, somar os quatro da emigração - 108. Fizeram-se contas e recontas mas dava sempre um défice de oito. Ainda se fosse daquelas contas para volkswagenear o défice orçamental... Mas não, eram cabeças para serem postadas em hemiciclo, filmadas, com bancadas de jornalistas à coca e público a espreitar das galerias - um buraco de oito nota-se.
Em Belém, Cavaco olhou o Tejo, passou uma falua, e esse concurso de circunstâncias - a calculadora mais a vela latina - levou-o a pensar que se não se podia governar com vento à popa, podia-se bolinar, ziguezagueando. Isso levou-o direito à solução: "O PS!!!", explicou ele a Passos Coelho. Cavaco Silva serviu em África, mas só na Universidade de Lourenço Marques, não esteve na savana e não aprendeu a lei n.º 1 do caçador: nunca cutucar uma pacaça ferida. António Costa lambia as feridas de domingo quando foi despertado pela Pátria. Ninguém se sente mais vivinho da Costa do que encontrar, ao sair do bloco operatório, apelos ansiosos de ajuda...
Entretanto, a semana avançava como se um estado de sítio - uma Lei de Murphy à portuguesa, "nada pode ser mais extraordinário por cá do que aquilo que é óbvio lá fora" - tivesse sido imposto a toda política portuguesa. Nada ficou imune, até o PCP. Jerónimo de Sousa, que fora interpelado durante a campanha por um garoto ("quando for grande quero ser primeiro-ministro", disse o menino), começou a pensar que na sua vida, até aí restringida a operário metalúrgico e líder do PC, ainda podia vir a ser político. Essa epifania, acrescentada ao acidente (uma Catarina de olhos azuis atropelou-o no dia 4), levou Jerónimo, já que tinha uns deputados, fazer com eles política. Falou com Costa, o tal revivido, e empurrou-o. "Vai", disse. A semana farta em ação tem tido ainda a vantagem de discursos breves.
Os portugueses, já espantados com os resultados óbvios, surpreendiam-se com as esquisitices que se podem fazer com o adquirido que afinal não é. Por exemplo, ainda ontem, o ganhador sentou-se com o perdedor e pôs cara de póquer. O outro limitou-se a dizer: "Pago para ver." Não viu nada, mas nós vimos que o ganhador teve de dizer: "Para a próxima vou ser mais atrevido." Para a semana há mais.
O que eu quero dizer-vos é que estou a gostar. Políticos a fazer política, nunca esperei.
Ferreira Fernandes
Hoje no DN

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Assim começou a noite das facas longas:

António Costa tem de se precaver porque os Seguristas não lhe vão dar descanso. Ainda não digeriram a derrota nas Eleições directas. Mas o mais bonito e´ que estes Seguristas neste momento não se apercebem que estão a dar ouro ao bandido. Estão a fazer o jogo da direita.
Não se lembram do que foi noticiado nos jornais após o debate entre António Costa e Jerónimo de Sousa que elementos da Coligação PAF avisaram a CDU que estavam a perder simpatias no eleitorado. A partir daí a Coligação CDU começou com ataques e mais ataques ao PS e António Costa. Ao ouvir esses ataques a Coligação PAF regozijava-se de contentamento. E´ o que acontece neste momento. PAF e comunicação social estão nas suas quintas. Só que agora quem faz esse “trabalho” são quem se intitula PS.
Daqui faço um apelo a António Costa que não desista e quando marcar o congresso extraordinário que se candidate a novo mandato. Que dê oportunidade aos simpatizantes do PS que possam votar nas directas. Depois quero ver quem tem dedos para tocar viola.              

O povo decidiu esta´ decidido:

 Mas prevejo que quem esta´ mais em apuros e´ a Coligação. Foi uma vitória mas uma vitória sofrível. O PS perdeu as eleições mas conseguiu mais deputados que em dois mil e onze. Não foram muitos mas foram doze. A coligação ganhou mas perdeu vinte e cinco deputados em relação a dois mil e doze.
O PS ganhou cerca de cento e trinta mil votantes. Enquanto a Coligação perdeu setecentos e cinquenta mil. Por isso na minha modesta opinião não e´ motivo de regozijo como a Coligação quer dar a entender.
E, a prova disso, e´ ver a locução de António Costa e a de Paulo Portas e Passos Coelho. Quem não soubesse o resultado das eleições ate´ ficava convencido que quem ganhou foi o PS. Foi uma comunicação de fair play.
Ao contrário a locução de Paulo Portas e Passos Coelho dava a impressão de ser num velório. Nem se dignaram a responder aos jornalistas. Por isso não vejo a tal vitória que eles reclamam.
Paulo Portas dirigiu farpas a António Costa. Mas esqueceu-se de se referir ao resultado do CDS na Madeira. Sempre que me lembre teve um ou mais deputados. O seu líder antes da locução pediu a sua – dele, José Manuel Rodrigues – exoneração e Paulo Portas nada disse sobre isso.
Agora na minha modesta opinião ainda bem que o PS não tenha ganho as eleições com uma maioria simples. Se o tivesse feito e aceitasse a governação íamos ter a cópia de dois mil e onze. Assim o ónus da governação passa para a Coligação. E a ver vamos se não vamos ter o PEC um, dois e três.
Não vamos ver mais na Assembleia da República a sobranceria do PSD e CDS. Vão cair na realidade. Por isso o PS que tenha juízo.
Os Seguristas, Álvaro Beleza e Ana Gomes, já afiaram as facas com que querem espetar em António Costa. Não se lembram que no PS não há melhor conciliador que António Costa. E, vai ser quer queiram ou não, que tem condições para dialogar com a esquerda radical. Se assim não for a direita agradece.
Já ontem todos esperavam pelo pedido de demissão de António Costa. Mas não o fez. E… na sala em que estava reunida a direita foi um descalabro. Vamos ver o que vai acontecer.        

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Portugal pede mais:

Toda a gente se lembra - ou ninguém? - de quando o banqueiro Fernando Ulrich, em 2012, comparou os portugueses a sem--abrigo: se os sem-abrigo aguentavam e não morriam, também nós aguentaríamos mais e mais austeridade. D"après Passos que, meses antes, chamara piegas a quem se insurgia contra a dureza das suas medidas.
Ulrich tinha razão. Se ainda estamos vivos, não morremos. Deve querer dizer que aguentámos, ou seja, que afinal não foi assim tão mau, portanto que estávamos mesmo armados em piegas. Vai mais uma dose, pois - é isso que as sondagens dizem. Partindo, claro, do princípio de que estão certas. E que a maioria de nós sabe perfeitamente - as pessoas não são parvas - o que quer dizer a milagrosa conversão de Passos em arrependido mãos-largas que quer "dar tudo a toda a gente"; um Passos tão outro que, tendo em 2011, na biografia Um homem Invulgar, garantido ter-lhe o livro Porque não Sou Cristão, do ateu Bertrand Russel, "declinado bastante a relação com o transcendente", saca à boca das urnas crucifixos do bolso para a TV.
Como o seu padrinho político e empresarial Ângelo Correia, na SIC--N, reagindo em prodígio de sarcasmo à revelação - "Ele usou o crucifixo hoje? Bom sinal. Nunca é tarde para alguém se converter. É uma coisa que aguardo há tempo para mim mas ainda não consegui. Não consegui aproveitar a campanha eleitoral para isso" - ninguém acredita neste Passos bonzinho, piedoso, que repete as tretas da campanha de há quatro anos sobre nunca jamais em tempo algum cortar pensões ou aumentar impostos porque "já chega".
Não, não nos chega. Queremos mais do verdadeiro Passos. Queremos "reduzir ainda mais os custos do trabalho", coisa que ele lamentou não ter feito suficientemente no primeiro mandato, ou seja, queremos, a maioria de nós que vive de um salário, ganhar menos (ainda) e custar menos (ainda) a despedir. Queremos menos apoios sociais para os pobres e todos entregues às caridades; pagar mais pela saúde; ter educação pública de pior qualidade enquanto desviamos os recursos para a privada; queremos cortes à séria nas pensões (maldito Tribunal Constitucional que travou os definitivos em 2014, há de ceder por fim); queremos menos dinheiro para a ciência; queremos vender ou concessionar a privados tudo o que é do Estado, com prejuízo ou o que for, porque a gestão privada, como está mais que demonstrado, do Lehman Brothers ao BPN e do BES à Volkswagen, é que garante bondade e eficiência. E queremos mais e mais emigração - aliás, por que raio proibiu o governo a divulgação dos números de 2014 antes das eleições? Será que acham que os prejudica nas urnas?
Não. Não deviam ter medo de assumir a obra e ao que vêm, esconder a cara nos cartazes e a sigla PSD-CDS na PAF. Não sejam piegas, que nós não somos. A crer nas sondagens, queremos tudo e mais alguma coisa que Passos queira (como não tem programa eleitoral, vai-nos fazer a surpresa). Portugal pode - aguentar e pedir - mais.

FERNANDA CÂNCIO
No DN