terça-feira, 14 de julho de 2015

Sessão de fogo:

Acabadinha há pouco tempo. Que grande sessão de fogo-de-artifício. Freamunde é assim. Esquece as suas preocupações durante as festas Sebastianas e tudo faz para mostrar a quem nos visita do que somos capazes. Vou agora sair de casa para ver a monumental marcha alegórica. Nesta noite Freamunde não dorme. Novos e velhos dão cor e alegria às suas Sebastianas. Somos assim: alegria na festa e festa na alegria.




sábado, 11 de julho de 2015

Os Indícios do indício do indício:

(Estátua de Sal, 10/07/2015)

Eu olhei para ti e o teu nariz indiciava que estavas constipado. Estava meio para o vermelhusco. Mas, isso sou eu que não percebo nada de indícios. O Juiz Alexandre e o Procurador Rosário, não. Esses são especialistas em indícios.

Tiveste azar. O Rosário cruzou contigo, quando foste à farmácia comprar Nasonex, olhou-te para o nariz e viu logo que a constipação era uma grande tanga. Tu eras, sim, um cocainómano inveterado, via-se logo pelo nariz, e lá foste engavetado, por fortes indícios de consumo de drogas. Recorreste da pena, claro, mas como podias continuar a snifar, mantiveram-te em preventiva para o Rosário poder discernir a proveniência do pó.

Foram-te ver as contas bancárias. Azar o teu. Tinhas comprado no Ebay, uma mala Louis Vuitton, daquelas caras mas chiquérrimas, que estava ao preço da chuva, e tinhas pago com a conta do Paypal. Quando o Rosário viu a transação compreendeu tudo. Era um forte indício de que além de snifares ainda eras traficante. Sim, porque ninguém compra malas que venham vazias. O pó vinha lá dentro, de certeza. Conclusão: passaste a ser acusado de tráfico de droga, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

A partir daqui, o Rosário entrou em ebulição. Mandou a Judite lá a casa. Tragam a mala. Mais uma vez, azar o teu. Tinhas querido preservar o seleto cabedal, das traças e de outra bicharada, pelo que tinhas espalhado naftalina em profusão por dentro e por fora. Quando o Rosário viu os tons esbranquiçados, não teve dúvidas: não eram fortes indícios, era a prova acabada do crime e, por consequência, da sua sageza.

Mas o Rosário não ficou por aí. Continuou a ver-te os extratos bancários. E, azar o teu. Há quatro anos, antes da crise, tinhas tido uns quinze dias maravilhosos de férias na Colômbia, acompanhado por uma namorada que tinhas conhecido num chat da Internet. Estava tudo claro. Já não eram só fortes indícios. Era óbvio que só podias pertencer à rede de tráfico do Pablo Escobar ou de outro traficante qualquer. O Rosário era brilhante.

E lá foste apodrecendo os ossos na pildra.

Achaste que tudo isto era uma grande ignomínia, até porque, O Correio da Manhã, sem tu perceberes como, fazia grandes manchetes noticiando que estava em vias de ser desmantelada uma importante rede de tráfico de droga da qual tu serias o cabecilha. E mais, a tal namorada, que já não vias há dois anos, e que tos tinha posto com o teu melhor amigo, era apresentada como tua cúmplice e também cabecilha da rede. Azar o teu. Um mal nunca vem só.

Os advogados lá iam metendo recursos. Queriam que o Rosário te acusasse ou que o Alexandre te mandasse para casa. Que não, que não podia ser. Que o processo era de “especial complexidade”. Havia que contactar o FBI, a Interpol, a CIA, a Mossad e esperar a resposta. Logo, toma lá mais três meses de chilindró.

Entretanto o Rosário afadigava-se. Parecia um perdigueiro. Sentia que tinha em mãos um caso graúdo, e que tal exigia especial perícia investigatória.

Mandou pedir, à agência de viagens, a lista de todas as viagens que tinhas feito nos últimos dez anos, na expetativa que alguma delas te tivesse sido “oferecida”, o que indiciaria eventual corrupção. Azar o teu. Há dois anos tinhas feito férias no Algarve e ficado alojado em Vale do Lobo. Quando soube, o Rosário entrou em delírio. Era a prova que faltava. A prova das provas.

No dia seguinte, o Correio da Manhã, trazia em grande caixa, como sendo os últimos desenvolvimentos da Operação Marquês: DINHEIRO PARA SÓCRATES TAMBÉM PROVINHA DA COLÔMBIA. E desenvolvia o tema. Traficante de droga, transportava dinheiro para Sócrates em malas Louis Vuitton. A investigação suspeita que as entregas seriam feitas no empreendimento de Vale do Lobo, pelo traficante, a quem Sócrates pagava as férias para poder receber as verbas.

Eu sei que tu achas que tudo isto é uma grande injustiça. Uma conspiração. Que nunca snifaste, que a namorada te traiu, que não conheces o Sócrates de lado nenhum, que não fizeste nada, e que só apanhaste uma constipação. Eu sei tudo isso, pois sei. Mas não te vale de nada o que sabemos ambos.

Mas olha, deixo-te um conselho. Se conseguires sair vivo desta, não te cruzes mais com o Rosário e evita ires à farmácia onde ele compra o Libidum Fast que o Futre anuncia, em dupla e libidinosa companhia. E, de preferência, não te constipes outra vez. Fica mais barato pagar a vacina da gripe do que pagar aos advogados.

E, enquanto estiveres preso, vai lendo livros policiais, mas dos melhores: Conan Doyle, Agatha Christie, Dashiell Hammett e outros que tais.

É que, há gente que errou na profissão, como parece ser o caso do Procurador Rosário. Devia sonhar ser escritor de romances policiais e carrega o fardo de uma vocação reprimida. E a frustração dá nisto, como vês: consegue fazer de uma constipação um caso de polícia. Na verdade, é um grande autor de literatura policial. Mas da má. Da que cheira a cordel por todo o lado.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Não há almoços grátis:

Há muito que não escrevo um texto. Não é por falta de temas, mas sim, por falta de vontade. Ando um pouco aborrecido com o que ouço e vejo. Ainda ontem assisti ao debate do Estado da Nação no Parlamento, através do Canal com o mesmo nome. E a minha admiração foi total com o que Passos Coelho nos tentou vender. O País que ele proclamou de certeza não é Portugal.
Portugal está imenso pobre e este governo só sabe produzir pobreza. Basta estar atento aos textos e comentários que são escritos nas redes sociais. Depois de contrariado pelos partidos da oposição não deixou de os contrariar levando os seus correligionários, PSD E CDS, a levantarem-se das cadeiras para lhe bater palmas. Fez-me lembrar as claques de futebol. Triste espectáculo. Até parece que com isto fazem mudar a opinião dos portugueses. De tantas que disse que foi apelidado de mentiroso. E não há dúvida que é isso que ele é.
Está a governar Portugal na base da mentira. Também tem em Cavaco Silva um aliado. Se assim não fosse já há muito que não era primeiro-ministro. Mais a mais que este governo está a governar fora de prazo. Fez quatro anos no dia um de Julho deste ano que começou a governar mas Cavaco Silva deu-lhe mais tempo de vida para lavar a sua face. Mesmo assim não vejo lura de onde saia coelho.
E a prova provada é que tanto Cavaco Silva como toda a comunicação social tenta segurar este governo. Senão vejamos: ontem depois do debate do “Estado da Nação” é que a TVI, Público e TSF deram a conhecer os resultados dessa sondagem. É impossível que esses resultados não fossem do conhecimento antes do dito debate. É o que faz ter no governo assessores que são jornalistas.
Rui Baptista editor de Política da Lusa e agora assessor do actual primeiro-ministro foi dos jornalistas que mais criticou o governo de José Sócrates. Hoje é um lambe botas que só anda atrás de Passos Coelho. Desconfio que até para o Wc o acompanha.
Mas voltemos às sondagens. Sei que a verdadeira sondagem é aquela que se faz depois das urnas fecharem. Mas é mais gratificante ir à frente do que atrás. Refiro-me ao que toca à classificação. Não levem para segundo sentido.
Depois é aterrador a diferença entre António Costa e Passos Coelho. Assim como é aterrador o estado do País. Agora não me venham dizer que se estes resultados saíssem antes do debate o peito que fez Passos Coelho não era o mesmo. Também não era apelidado de mentiroso. Embora saibamos que não passa de um aldrabão.
Assim só deve agradecer a estes órgãos de informação os favores que lhe fizeram. Mas em tudo não há almoços grátis. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Maria Barroso, uma árvore rija e acolhedora:

E ela voltou a fazê-lo. Levantou o dedo, tinha de dizer o que pensava. Estava a falar o representante dos Estados Unidos, a justificar a não assinatura do tratado contra as minas antipessoais, Otava, 1997. Quando o general se calou, Maria Barroso exclamou que aquela atitude era injustificável e arrancou uma enorme salva de palmas. Sem os votos dos Estados Unidos, da China e da Rússia, a convenção foi assinada por 162 países e proibiu o uso, o armazenamento, a produção e o transporte de minas antipessoais, determinou a sua destruição.
Nunca calava a indignação. Construiu-se no equilíbrio entre o que tinha de ser feito e o que ela achava que tinha de fazer. Cresceu nas dificuldades de uma família na qual recusar a ditadura causou estragos brutais, situações inimagináveis hoje, porque o regime do Estado Novo não tinha meias-tintas e prendia, deportava, tirava a possibilidade de trabalho e de uma vida normal aos que a combatiam.
Havia nela uma firmeza de princípios que não lhe dava espaço para hesitar, estava na sua natureza. Escolheu o teatro, um caminho difícil quando esse mundo era malvisto. Estudava na Faculdade de Letras de dia, à noite ia para a Companhia de Amélia Rey Colaço. Na única noite em que a mãe não a acompanhou, adormeceu no camarim e falhou uma deixa. Primeiro ficou aflita, depois avançou para o palco, no 3.º ato de Antígona, formosa e segura. Quando dizia poemas, ali estavam a voz da atriz e a convicção herdada da família. Quando discutia política, tinha opiniões fortes e não se coibia de defendê-las.
Amou um homem e não se escondeu à sombra dele. O regresso à fé católica não a afastou de nada do que lhe era essencial, pelo contrário. Com Mário, o filhos, os sobrinhos, os netos, o colégio criado pelo sogro, o partido que ajudou a fundar, ela era uma árvore rija e acolhedora. Duríssima se preciso fosse. Não era uma ex no que quer que fizesse, estava sempre lá. Citava uma frase que ouvira ao padre Feytor Pinto: se queres que alguma coisa seja feita, pede a quem tem muito que fazer. Criou a Fundação Pro Dignitate, porque se preocupava com os outros e era atenta e solidária.
Foi feliz no último dia em que esteve consciente, na festa de fim de ano do Colégio Moderno. Jantou em família, o clã que lhe era uma das razões de existir. Caiu, não deu importância a isso, e só porque insistiram foi ao hospital, elegante como sempre. Ficou internada por precaução, para fazer exames no dia seguinte. Serena, porque não tinha desperdiçado o tempo que viveu. Entrou de repente na noite escura e o corpo frágil demorou até perceber que estava na hora de fazer o que era preciso.
ANA SOUSA DIAS
Hoje no DN

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A democracia e a Europa voltaram a nascer na Grécia:

Os conceitos de democracia e de Europa herdámo-los da Grécia da antiguidade clássica. No dia 5 de Julho de 2015 – que privilégio, por entre a asfixia da crise e dos seus discursos, assistir em directo a um tal evento histórico! – a possibilidade de um projecto democrático europeu voltou a ressurgir, a possibilidade sublinhe-se, pela votação do povo grego.

Afirmar isto de modo nenhum significa um apoio à política do Syriza. Politicamente, estes cinco meses foram de jogos de esconde, promete e adia, de um radicalismo verbal - de que o expoente é Yannis Varoufakis, o “desengravatado” que afinal é um distinto exemplo de “esquerda caviar”, como se viu na reportagem fotográfica na “Paris Match” - afinal simétrico desta terrível rarefacção de pensamento e discurso característica da casta oligárquica das instituições europeias.

Mais: a germanofobia e o jogo chantagista com a aproximação a Putin foram não só perigosos como abjectos. Mais ainda, ponto fundamental que os apoiantes do partido e de Tsipras cuidadosamente rasuram: até pela sua aliança com um partido de direita nacionalista, os Gregos Independentes, o governo do Syriza nada, mas nada fez no sentido da reforma do sistema clientelar que durante décadas sustentou o duopólio Nova Democracia/Pasok ou da situação simbólica mas também fundiária e tributária de privilégio da Igreja Ortodoxa, inclusive contrária aos princípios de laicidade que são suposto reger os Estados democráticos, e desde logo os que integram a União Europeia.

A história das responsabilidades da crise na Grécia é longa, e não se reduz a situações de “privilégio” e muito menos a uma ausência de capacidade e disposição produtiva, como foi repetido à saciedade num vergonhoso discurso de ostracização daquele país, inclusive repetido até à véspera da votação por Passos Coelho e Paulo Portas, sempre “mais troikistas que a troika”. Essa crise é inseparável do regime de duopólio e de desordenadas contas públicas, mas também do apoio activo a essa política por parte da banca internacional, que, com os juros dos empréstimos, acabou por ser a grande e única beneficiária da crise.

Toda essa história existe, não pode ser denegada, e tem profundas consequências na situação actual do país. Todavia o desafio que representou o referendo tem implicações de outra ordem para toda a Europa: aprecie-se ou não o resultado - com a vitória surpreendentemente expressiva do Não – e o modo como foi desencadeado o processo, o certo é que houve uma decisão inequívoca e democrática. E legitimação democrática é justamente o que mais tem faltado numa arquitectura política que vem sendo o de uma eurocracia, ao arrepio do projecto europeu de Jean Monnet e Robert Schuman, de François Mitterrand, Helmut Kohl e Jacques Delors.

Na tão esquecida Declaração de Leiken, que deu origem ao abortado processo de Constituição Europeia, estava expressamente inscrito como um dos objectivos “a aproximação dos cidadãos às instituições europeias” – o caminho dos governos e da casta eurocrática tem sido exactamente o inverso.

A convocação do referendo pode também ter sido a derradeira cartada na lógica da “teoria dos jogos” que é a especialidade de Yannis Varoufakis. Isso pouco importa agora. O que sobremaneira há a assinalar é que na Grécia houve uma decisão de voto popular, e que em concreto isso enuncia um Não às condições impostas pelas ora designadas “instituições”, de resto em tudo coincidentes, não pode deixar de ser dito, com as exigências do capital financeiro internacional.

Há, é inegável, uma margem de ambiguidade característica do discurso de Tsipras e do Syriza, mas isso não autoriza que expoentes da eurocracia comecem a dizer, como já sucedeu, que a Grécia recusou a Europa e a Zona Euro. O que concretamente se votou foram as condições impostas pelas “instituições” e reforçadas na inacreditável chantagem a que se assistiu nestas semanas. Independentemente de quaisquer simpatias políticas ou antes pelo contrário, é elementar reconhecer que o governo do Syriza, se não está mandatado para fazer a Grécia sair da zona euro ou da União Europeia, também não estava mandatado para ceder às condições das “instituições”.

Não se comecem pois desde já a agitar fantasmas, mesmo que tendo bases reais: as vagas populistas, xenófobas, eurocépticas e eurofóbicas que ocorrem na Europa, de resto num larguíssimo espectro político, da Frente Nacional francesa ao Podemos espanhol, passando pelos movimentos de Beppe Grillo na Itália, de Nigel Farage no Reino Unido, pelo Fidesz de Viktor Orban no poder na Hungria, pelos Verdadeiros Finlandeses ou pelo Partido do Povo Dinamarquês (estes que, na sequência das recentes eleições, integram o governo, no caso dos finlandeses, virão a integrar directa ou indirectamente a coligação governativa, no caso dos dinamarqueses), etc., essa assustadora e heteróclita vaga não é, sublinhe-se bem, não é, “A” beneficiária do resultado do referendo grego, por efeitos colaterais que possa recolher. Isto porque a decisão referendada lança um outro e tremendamente mais importante desafio: a partir de hoje aceitam ou não os dirigentes europeus e internacionais que há uma negociação tendo como premissa uma irrefutável decisão democrática?

AUGUSTO M. SEABRA 06/07/2015
No Público