Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
domingo, 28 de junho de 2015
terça-feira, 23 de junho de 2015
Mentira como método:
«Depois da sessão de aquecimento
em torno da emigração, eis que Passos Coelho mete prego a fundo na farsa dos
mitos urbanos e decide oferecer aos portugueses um festival de mentiras como
nunca antes visto. Que Passos Coelho mente, e mente reiteradamente, não é
novidade. Mas, que me recorde, nunca o havia feito como na sexta-feira passada.
Era o último debate quinzenal, e Passos Coelho deixou bem claro aquilo que
pretende fazer até às eleições: mentir. Mentir repetidamente e sem qualquer
tipo de pudor.
Não estamos a apenas a falar de
falsas promessas, como dizer que não se vai cortar salários, não se vai
despedir ninguém, não se vai acabar com o 13º mês e que se vai fazer
austeridade apenas nas gorduras do estado e não nas pessoas. Isso era em 2011.
Em 2015, depois de 4 anos a governar, para além de promessas mentirosas como no
passado (como dizer a Bruxelas que pretende cortar nas pensões negando, em
Portugal, que tal compromisso exista), há que acrescentar um outro tipo de
mentiras, que são necessárias para ocultar o que se passou nos últimos 4 anos.
A troika, cuja vinda foi
amplamente desejada, que foi uma aliada útil durante vários anos e que até
pecava por défice de radicalismo no “ajustamento, passou a ser uma espécie de
diabo que Passos heroicamente expulsou do país.
O IVA, que o memorando previa que
fosse aumentado em 400 milhões de euros e que este governo aumentou em mais de
2000 milhões, nunca foi aumentado.
Os rendimentos dos mais pobres,
apesar do brutal aumento do IVA e de praticamente todas as prestações públicas
de combate à pobreza terem sido cortadas (Rendimento Social de Inserção,
Complemento Solidário para Idosos, Complemento por Dependência), apesar da
pobreza ter disparado, apesar do Orçamento de Estado para 2015 prever um novo
corte de 100 milhões de euros em prestações sociais, não foram beliscados.
Os salários dos funcionários
públicos e as pensões, que este governo insistiu obsessivamente cortar e que o
Tribunal Constitucional, em 2013, 2014 e 2015, obrigou a devolver, estão a
aumentar por mérito das políticas deste governo.
A educação, a saúde, a justiça
nunca estiveram melhores. Aliás, o Estado, quer nos serviços públicos, quer no
fisco, nunca funcionou tão bem e nunca foi tão amigo do cidadão como agora.
O investimento em ciência e na
inovação, apesar da destruição dos últimos 4 anos, é uma grande aposta da atual
maioria. O combate à pobreza que este governo criou também é.
O IRS, apesar do enorme aumento
de impostos, superior a 30%, é agora amigo das famílias, apesar do governo ter
optado por medidas regressivas de apoio às famílias com filhos que tratam os
filhos de ricos de forma diferente dos filhos de pobres.
O consumo cresce sem recurso ao
endividamento, apesar do crédito ao consumo ter disparado 30%.
As exportações nunca cresceram
tanto, apesar de terem crescido bem mais antes deste governo entrar em funções
e do crescimento presente ser, em grande medida, fruto de investimentos do
passado, que não estão a ser feitos no presente.
O saldo externo positivo é uma
reforma estrutural, apesar de ser, em grande medida, conjuntural, um produto da
recessão e da queda das importações. No primeiro ano em que economia cresceu
uns míseros 0.9% (depois de uma queda acumulada superior a 6%), as importações
dispararam e o saldo externo degradou-se 30%. Os últimos dados conhecidos,
apesar da desvalorização do euro e da queda do preço do petróleo, mostram que
as importações continuam a crescer bem acima das exportações.
O investimento, apesar de ter
caído 30%, regredindo a níveis de meados dos anos 80, dispara. O facto desse
“disparar” ser explicado, não pelo investimento em sectores transacionáveis,
como diz o Passos Coelho, mas pela compra de automóveis e pela construção
(depois de colapsar, deu um pequeno suspiro), que não têm qualquer relação com
o IRC – a grande reforma promotora do investimento deste governo – são
pormenores irrelevantes.
O emprego, apesar dos 450 mil
empregos destruídos, cresce espetacularmente. Passos Coelho garante que o
emprego cresce por causa das reformas estruturais, que flexibilizaram o mercado
de trabalho, e por causa da redução da dependência do Estado, apesar todos os
recursos públicos (fundos europeus) usados para fabricar empregos (mais de 50%
do “emprego” criado tem apoio público) e, sobretudo, apesar do emprego só ter
deixado de cair quando o TC impediu Passos Coelho de concretizar o seu
alucinado plano - anunciado no final de 2012 e reafirmado em abril de 2013 - de
cortar 4 mil milhões de euros no Estado Social, em pensões e em salários da
função pública.
A dívida pública, apesar das
privatizações claramente além da troika, apesar de ter aumentado 30 pontos
percentuais, mais do triplo do que o governo previa (dados que incluem todas as
alterações de perímetro orçamental e de toda a dívida dita “escondida”), vai
começar a baixar.
Há pouco, muito pouco da
narrativa de Passos Coelho que não seja mentira ou, numa versão mais suave, uma
aldrabice.
Há uma meia verdade, que é a
história nos juros. Em 2011, de facto, os juros estavam elevadíssimos e eram
incomportáveis. E os juros baixaram. Acontece que, da mesma forma que não foi
Sócrates que fez disparar os juros da da Irlanda, da Espanha ou da Itália,
também não foi Passos Coelho que, em 2012, fez baixar os juros de todos estes
países, e muito menos foi Passos Coelho que, com a confiança gerada pelas suas
políticas, fez com que os juros chegassem a níveis negativos. Por essa razão,
da mesma maneira que foi a alteração do comportamento do BCE que permitiu pôr
termo à crise das dívidas soberanas e baixar os juros, só o BCE pode evitar que
Portugal volte a ser afetado por perturbações no mercado da dívida. Passar a
ideia de que os juros estão baixos porque Portugal tem os cofres cheios, é não
só falso como perigoso. Se algo de grave se passar, não são os cofres portugueses,
por muito cheios que possam estar, que acalmam os mercados. No futuro, como no
passado, o único cofre capaz de pôr termo a uma crise nos mercados da dívida é
o BCE. Sugerir o contrário pode não ser considerado tecnicamente uma mentira,
mas não é menos grave por isso.» [Expresso]
Autor:
João Galamba.
domingo, 21 de junho de 2015
A 10.000 metros de altivez
Como vem sucedendo ultimamente e
com uma frequência preocupante, também desta vez Cavaco Silva perdeu uma
excelente oportunidade para guardar silêncio ou ponderar melhor o alcance do
que disse. Primeiro, por respeito à tripulação daquele avião e a todos os
trabalhadores da TAP, que vivem tempos de incerteza e instabilidade que
certamente o Presidente não pode dissipar. Depois, por respeito às gerações de
portugueses, residentes e emigrados, que andaram ao colo da TAP e com a TAP ao
colo, sustentando-a com a sua fidelidade e com o seu dinheiro (500 milhões, por
exemplo, no governo do dr. Cavaco Silva) e que a consideravam coisa sua — agora
vendida sem lhes dar cavaco.
Ao considerar a venda da TAP um
“alívio”, o Presidente ou conhece os termos do contrato ou assina de cruz a
decisão do Governo
Ao considerar a venda um
“alívio”, o Presidente deixou insinuada uma de duas coisas: ou que conhece os
exactos termos do contrato de venda (que ninguém mais, excepto o Governo,
conhece) ou que, mesmo desconhecendo-os, assina de cruz a decisão do Governo.
Na primeira hipótese, é notável para quem está há dois anos a reclamar
consensos e, pelos vistos, não se importa e é solidário com um negócio feito no
desconhecimento e contra a vontade do maior partido da oposição e da totalidade
dos donos da empresa: os contribuintes. Na segunda hipótese, o apoio
entusiástico de Cavaco Silva a um negócio cujos contornos desconhecerá e não
poderá avaliar, significaria apenas um passo — mais um — na direcção de apoio
incondicional que vem dando ao Governo em funções, a quatro meses das urnas.
Lamentável, mas já sem surpresa para ninguém.
Aliás, lá em cima, a 10.000
metros, ponderando sobre as críticas recebidas a este propósito, Sua Excelência
declarou-se também absolutamente indiferente a elas, com o “ego satisfeito” que
lhe dão as quatro maiorias absolutas recebidas ao longo destas penosas duas
décadas em que ocupou o topo do Estado. É assim que ele reflecte sobre os dados
referentes ao crescente descrédito com que uma maioria consistente de
portugueses analisa o seu desempenho. Mas está de saída, já não lhe importa o
que os portugueses pensam sobre ele. A seu tempo, tratará de cuidar para que a
historiografia oficial registe apenas o que lhe interessa. E, daqui até ao
final do mandato, não é provável que Cavaco Silva tenha de abdicar, em visitas
de Estado, de aviões fretados à TAP sob a insígnia “Air Portugal”, que
certamente prefere a aviões fretados à EasyJet ou à Balkan Airlines. O que não
faltou a Cavaco Silva foram motivos de alívio.
2 Já com os pés bem assentes na
terra da Bulgária, Sua Excelência aproveitou também uma pergunta de
circunstância para azucrinar os gregos e o seu Governo. Fica-lhe mal, é feio
bater em quem está por baixo e melhor teria feito em deixar essa tarefa para o
seu Governo, pois que a representação do Estado não se adequa com o
envolvimento nas questões dos governos europeus. Aliás, deverá ter acreditado
no desonroso acontecimento a que assistiu, quando, noutra visita de Estado à
República Checa, tinha Portugal acabado de pedir ajuda externa, ouviu, em
silêncio, o anfitrião checo criticar, em termos ofensivos, os portugueses e o
seu Governo. O novo-riquismo é sempre uma coisa feia de ver.
3 Felizmente, tenho fundadas
razões para crer que as palavras de Cavaco não chegaram à Grécia e ao seu
Governo — com coisas bem mais importantes em que pensar por estes dias. Ou, se
chegaram, terão produzido o mesmo efeito que as críticas internas produzem em
Cavaco Silva, segundo o próprio: nenhum.
Esta quinta-feira à tarde, em
Atenas — no que se anunciou como o último dos dias D para a Grécia —, enquanto
o Eurogrupo discutia no Luxemburgo o futuro dos gregos na Europa, o céu ficou
subitamente cinzento e a chuva começou a cair, augurando más notícias, depois
de dias de sol e calor tórrido. Mas, passadas umas duas horas, o sol estava de
regresso, as colinas de Atenas e a da Acrópole estavam outra vez nítidas, como
estava o mar do Pireu, para lá delas, e o Parténon vigiava do alto da cidade,
lembrando que aqui começou a Europa dos valores que são os nossos. No ar, havia
de novo um horizonte de ilhas, de ciprestes e de oliveiras, a inteireza do
mundo mediterrânico que será para sempre a melhor civilização que o homem
conseguiu criar.
O clima refletia a incerteza
destes dias, entre a chuva e o sol, a descrença e a esperança. De um povo que,
como me contava uma jornalista grega, se habituou a viver há meses com o seu
destino suspenso — não já dia a dia, mas hora a hora.
A única certeza é que 84% dos
gregos querem continuar na UE e no euro. Mesmo que critiquem os excessos de
linguagem e de arrogância, apoiam maioritariamente o Governo do Syriza — não
pelo que conseguiu, mas pelo que tentou. Por ter tentado, por ter resgatado o
orgulho da Grécia. Sabem que cometeram erros e leviandades e que estão a pagar
por eles. Mas também acreditam que a receita dos credores é um caminho de
empobrecimento sem saída.
No centro de Atenas há menos
trânsito e muito menos turistas do que eu guardava memória. Quer ali quer na
periferia, não vi gente parada ou a vaguear sem destino: aparentemente, a vida
continua como sempre. Não há sinais evidentes quer de miséria quer de riqueza
(o parque automóvel é bem mais pobre do que o nosso e metade dos gregos
desloca-se de moto). Os fins de tarde e a célebre vida nocturna da cidade já
não são senão um resquício na zona da Plaka. A maior parte das pessoas está em
casa, em frente à televisão. À espera que lhes digam se o seu futuro está a
Leste ou a Ocidente, como tantas vezes sucedeu na história milenar desta terra.
Por muito que os teóricos e os economistas se esforcem por dar lições sobre o
que é e o que deve ser a Europa, a história continuará a ser sempre a chave de
todos os entendimentos.» [Expresso]
Autor:
Miguel Sousa Tavares.
sábado, 20 de junho de 2015
domingo, 14 de junho de 2015
O preso 44 e o Estado de direito:
«Refugiados nas afirmações politicamente correctas de circunstância —
“à justiça o que é da justiça”, “este é o tempo da justiça”, “todos são iguais
perante a lei”, “defendemos a separação de poderes”, etc. e etc. —, assustados
uns com as consequências eleitorais de defender Sócrates e avisados outros com
a necessidade de não melindrar os “justos” e assim atrair sobre si as atenções,
os nossos “agentes políticos”, como diria o dr. Cavaco, podem estar a pactuar
com uma situação irreversível e de consequências funestas para a democracia: o
momento em que o Estado de direito é substituído pelo Estado da magistratura.
Mas que Deus proteja todos e cada um de nós se tal vier a acontecer!
Como toda a gente de boa-fé, continuo sem saber se José Sócrates é
culpado ou inocente das suspeitas e suposições que contra ele foram levantadas
pelo Ministério Público. Tenho uma teoria — que fica muito aquém da teoria da
acusação mas também vai, pelo menos do ponto de vista ético, além da da defesa.
Mas a minha teoria, tal como o convencimento de todos os outros, num sentido ou
noutro, vale zero: a educação democrática e a experiência ensinaram-me que a
validade das acusações pendentes sobre uma pessoa, por maiores que sejam os
indícios sobre ela propagandeados, só se apura em julgamento, depois de ouvida
a acusação e a defesa, depois de produzidas as provas e analisado o seu
contraditório. E como o Estado de direito felizmente não engloba a noção de
julgamentos populares, seja por sondagens de opinião ou por primeiras páginas do
“Correio da Manhã”, estes pré-julgamentos públicos promovidos pelo MP, no que
chama casos “de especial complexidade”, não passam de uma indecente e desleal
forma de litigância que mandaria a decência, se coragem é exigir demasiado,
fosse denunciada como tal por aqueles que elegemos para defender o Estado de
direito. Eu esperei até ver a decisão sobre a manutenção da situação de prisão
preventiva de Sócrates, obrigatoriamente reanalisada seis meses após o seu
início — o tal “tempo da justiça”. Agora, já vi o suficiente e não me é
possível continuar calado. Sei que a minha posição é impopular, mas não sou
político e pagam-me para dizer, não para calar, o que penso. E tenho por mim
uma vantagem: não devo nada a Sócrates, rigorosamente nada — ao contrário de alguns
que tanto lhe devem e agora ficam calados ou até aproveitam para o pisar, como
o inultrapassável filósofo Carrilho. E acredito que a coragem da justiça não
consiste em acompanhar a opinião pública, mas, pelo contrário e se necessário,
julgar contra ela, obedecendo os juízes à lei e à sua consciência.
A manutenção de Sócrates em prisão preventiva é uma decisão que, em
termos pessoais, mais parece uma “vingança mesquinha”, como disse o seu
advogado, e, em termos jurídicos, é absolutamente insustentável. Mas convém
começar por relembrar que a prisão preventiva, ao contrário do que deixou
entender o acórdão da Relação de Lisboa neste caso, só pode ter por fundamento
as quatro situações de salvaguarda processual previstas na lei e jamais um
convencimento sobre a culpabilidade do suspeito — sob pena de se transformar
num pré-julgamento e numa pré-condenação, sem possibilidade efectiva de defesa.
Parece ser uma vingança, porque o MP já sabia que Sócrates recusaria a prisão
domiciliária com pulseira electrónica e, propondo o que sabia ia ser recusado,
quis apenas estender-lhe uma armadilha. Agora, até pode dizer que propôs a sua
saída da prisão — só que a arrogância do arguido recusou-a. Mas, mesmo assim,
quer o MP quer o juiz de Instrução (JIC) poderiam tê-lo posto em casa e, se
temiam o perigo de fuga, que lhe pusessem um polícia à porta (há tantos
polícias de plantão à porta de tanta gente importante e não há um disponível
para vigiar um ex-primeiro-ministro?). Se o não fizeram, foi porque a coragem
de Sócrates — preferindo enfrentar pelo menos mais três meses de prisão,
fechado doze horas por dia numa cela com 6 metros quadrados, sob temperaturas
de 36º — lhes soou como uma ofensa pessoal, insuportável de digerir.
E não tem qualquer sustentação jurídica, porque os dois fundamentos
invocados pelo MP e acolhidos pelo JIC, só não são ridículos porque são graves
e jogam com a liberdade de uma pessoa. A invocação do perigo de fuga (que o
próprio MP reconhece ser “diminuto” e que a Relação já descartou, constituindo,
portanto, caso julgado), é aberrante: alguém imagina um ex-PM, que se entregou
voluntariamente à prisão, uma vez posto em liberdade, andar por aí em fuga, de
cabeleira postiça, a atravessar fronteiras? E logo este, cujo orgulho, para o
bem ou para o mal, é sobejamente conhecido? Já quanto à invocação do perigo de
perturbação do processo, essa, é indigente: como é que Sócrates com pulseira
não perturba o processo, e sem pulseira já o perturba — será que a pulseira
grava conversas e analisa estados de alma?
A questão primeira é saber se José Sócrates alguma vez terá direito a
um julgamento isento.
Não, a decisão de o manter em Évora resulta apenas do facto de ele não
se ter vergado, de recusar ficar calado, de se defender publicamente de
acusações feitas publicamente, de enfrentar o terrorismo jornalístico diário do
“Correio da Manhã”, com o qual o “segredo de justiça” mantém uma relação de
compadrio escabrosa, de continuar a proclamar-se inocente e alvo de uma
perseguição pessoal e política e de ter recusado a humilhação de uma prisão
domiciliária, atado a uma anilha pensada para pedófilos, agressores conjugais e
criminosos contumazes. E de ainda lhes ter explicado que o fazia pela sua
dignidade e pela dos cargos que exerceu.
Esta semana, a “Sábado” publicou um exaustivo relato do segundo
interrogatório de Sócrates perante Rosário Teixeira, a 27 de Maio. É um
documento notável por duas razões. Primeiro, pelo desplante com que se assume
que aquilo é o resultado de uma gravação feita pelo MP. Ouvi que a drª Maria
José Morgado serviu uma teoria deveras imaginativa, segundo a qual grande parte
das fugas ao segredo de justiça eram promovidas pela própria defesa, para
depois se poder “vitimizar”. Neste caso, seria interessante que ela explicasse
como é que a gravação de um interrogatório, feita pelo MP, foi parar a uma
revista: terá o dr. Rosário Teixeira fornecido cópia à defesa de Sócrates, para
ele se poder vitimizar, ou terá inadvertidamente deixado o gravador ao alcance
de um qualquer funcionário ou jornalista de passagem?
Mas o mais impressionante do documento é a constatação de como, seis
meses decorridos sobre a prisão preventiva e mais de um ano sobre o início das
investigações, o MP continua literalmente aos papéis, seguindo o método
investigatório conhecido como de “pesca de arrasto”. O ponto de partida é o
mesmo de sempre e fundamental em tudo o resto: o dinheiro de Carlos Santos
Silva é, na verdade, de Sócrates, e todo ele resulta de “corrupção para acto
ilícito”. A partir daí, é o barro atirado à parede: a pista venezuelana do
favorecimento do Grupo Lena aparentemente esgotou-se, e dificilmente, aliás,
poderia caber dentro da tipificação de corrupção para acto ilícito, mas, quando
muito, de prémio por gestão corrente e até louvável — o que seria eticamente
insustentável, mas não crime algum. Então, as suspeitas, ou os “indícios”,
passaram a recair sobre qualquer crédito ou despesa registada na conta de
Santos Silva: se ele recebeu dinheiro de alguém ligado ao empreendimento de
Vale do Lobo, é porque se trata de dinheiro que serviu para pagar a Sócrates a
redacção ou alteração do Protal, a favor do empreendimento; se recebeu dinheiro
de alguém ligado à compra ou venda da quinta que foi de Duarte Lima, é porque,
por alguma obscura razão, era para pagar favores a Sócrates; se o dinheiro veio
de alguém que teria terrenos na Ota, é porque Sócrates mandou fazer lá o
aeroporto, em benefício de esse alguém; mas se também recebeu de alguém que
tinha terrenos em Alcochete, é porque afinal, em benefício de outrem, Sócrates
mudou o aeroporto para Alcochete; se passou o fim do ano em Veneza ou férias em
Formentera e Santos Silva o acompanhou e pagou parte das contas, é porque o
dinheiro era de Sócrates e proveniente de corrupção. E por aí adiante, numa
investigação que, assim, promete durar tanto como a exemplar investigação do
Freeport.
Não conheço o processo — que todos sabemos, aliás, estar em “segredo de
justiça”. Mas, a avaliar pelas fugas de informação, certamente promovidas pelo
dr. João Araújo, não vejo bem como é que tribunal algum, julgando com isenção e
face à prova produzida, conseguirá condenar Sócrates. Porque, repito: uma coisa
é a convicção, mesmo que esmagadoramente sustentada pela opinião pública, de
que ele é culpado; outra coisa é a prova de tal. Mas, face ao que se tem visto,
a questão primeira é saber se José Sócrates alguma vez terá direito a um
julgamento isento. E, se for o caso, a uma condenação baseada, não em
suposições ou manchetes do “Correio da Manhã”, mas nessa coisa comezinha, chata
e difícil de produzir, porém essencial, que se chama provas. O Estado de
direito não é um chá das cinco.» [Expresso]
Autor:
Francisco Sousa Tavares.
sábado, 13 de junho de 2015
Sempre Sócrates:
O cartaz com o rosto do ex-PM e os dizeres "José Sócrates
sempre" aposto à entrada de Lamego para o 10 de Junho terá sido pensado
como repto e jura, mas é sobretudo irónico. Afinal, pela primeira vez, dois dos
seus ministros iam ser condecorados: o recentemente desaparecido Mariano Gago,
responsável por uma pasta - Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - que o atual
governo extinguiu e cujo legado o próprio considerava estar a ser destruído
(sem que alguma vez tivéssemos ouvido o PR pugnar por ele), e Teixeira dos
Santos, que acompanhou Sócrates à frente das Finanças durante os dois mandatos,
sendo portanto o responsável pela política financeira que Cavaco tinha, na
tomada de posse, em março de 2011, arrasado de cabo a rabo.
Mas Teixeira dos Santos, recorde-se, foi o ministro que anunciou o
pedido de resgate através de um e-mail para um jornal. Ao condecorá-lo, Cavaco
não está só a lembrar que fez questão de não condecorar Sócrates: está a
distinguir o ministro cuja perceção pública é de que traiu o ex-PM. O silêncio
de PSD e CDS é igualmente significativo: os que em tempos acusavam Teixeira dos
Santos de ludibriar o país quanto ao défice parecem agora aprovar que seja
distinguido por serviços à Pátria.
É um notável dom de Sócrates, este, o de conseguir que tanto do que se
passa no país seja valorizado negativa ou positivamente em função da sua
relação consigo. Ante o processo de que é principal alvo, esta tendência foi
levada ao paroxismo. Qualquer pessoa que abra a boca para criticar a atuação da
justiça em geral e no caso em que é arguido em particular leva o labéu de
socrático ou, como escrevia ontem no Público João Miguel Tavares, inaugurando
uma nova categoria, de "simpatia por". Trata-se de quem quer, diz
JMT, que Sócrates seja ilibado "por dificuldade de prova" mesmo sendo
- é a propalada convicção do articulista - culpado sem remissão.
Ora se há coisa para a qual o processo Marquês tem servido é a de
iluminar aspetos menos conhecidos ou mais negligenciados do nosso sistema
judicial, da extensão inadmissível da prisão preventiva e dos critérios
incompreensíveis da sua aplicação às condições das prisões, passando por
disfunções já muito debatidas como a perversidade do segredo de justiça e a
arbitrariedade e opacidade das ações de juízes e MP - que podem chegar, como
frisava anteontem um mais do que insuspeito Pacheco Pereira na Sábado, à
possibilidade de "forçar provas" e condenar "por
convicção". Ser um ex-PM, e portanto alguém que foi responsável por medidas
de que agora é destinatário inconformado, a chamar-nos a atenção para as pechas
do sistema não pode constituir motivo para estas revelações serem
desqualificadas. O sistema judicial é - devia ser - muito mais importante do
que a simpatia ou a antipatia por Sócrates. Que num ano de legislativas estas
questões sejam tabu para os partidos, a começar pelo PS, é sinal de que a
doença de tudo reduzir ad Socratem está a dar cabo de nós.
FERNANDA CÂNCIO
Ontem no DN
quarta-feira, 10 de junho de 2015
São destes homens que Portugal precisa:
DECLARAÇÃO DE JOSÉ SÓCRATES
A minha prisão constituiu uma enorme e cruel injustiça. Seis meses sem
acusação. Seis meses sem acesso aos autos. Seis meses de um furiosa campanha
mediática de denegrimento e de difamação, permitida, se não dirigida, pelo
Ministério Público. Seis meses de imputações falsas, absurdas e, pior –
infundamentadas, o que significa que o Ministério Público não as poderia nem
deveria fazer, por não estarem sustentadas nem em indícios, nem em factos, nem
em provas. Seis meses, enfim, de arbítrio e de abuso.
Aqui chegados, que cada um assuma as suas responsabilidades. A minha
prisão foi uma violência exercida injustamente contra mim, mas foi-o de forma
unilateral – foi-me imposta. Esse acto contou sempre com o meu protesto e o meu
repúdio; nunca com o meu silêncio e muito menos com o meu assentimento. Agora,
o Ministério Público propõe prisão domiciliária com vigilância electrónica, que
continua a ser prisão, só que necessita do meu acordo. Nunca, em consciência,
poderia dá-lo.
Por outro lado, não posso ignorar – nem pactuar – com aquilo que, hoje,
para mim, está diante dos olhos: a prisão preventiva usada para investigar,
para despersonalizar, para quebrar, para calar, para obter sabe-se lá que
“confissões”. Também não ignoro – nem pactuo – com a utilização da prisão
domiciliária com vigilância electrónica como instrumento de suavização,
destinado a corrigir erros de forma a parecer que nunca se cometeram. Estas
“meias-libertações” não têm outro objetivo que não seja disfarçar o erro
original e o sucessivo falhanço: depois de seis meses de prisão, nem factos,
nem provas, nem acusação.
Meditei longamente nesta decisão, no que ela significa de sacrifício
pessoal e, principalmente, no sacrifício que representa para a minha família e
para os meus amigos, que têm suportado esta inacreditável situação com uma
extraordinária coragem. Todavia, o critério de decisão é simples – ela tem que
estar de acordo com o respeito que devo a mim próprio e com o respeito que devo
aos cargos públicos que exerci. Nas situações mais difíceis há sempre uma
escolha. A minha é esta: digo não.
Évora, 8 de Junho de 2015
José Sócrates
José Sócrates
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