sábado, 25 de abril de 2015

Mais umas linhas sobre a falecida ideia:

Pelas fotos tinham ar alucinado. E eram alucinados (ele estava preso por bater na mãe e ela fora condenada a 18 anos por matar um cliente). E foram considerados alucinados a ponto de serem internados na ala psiquiátrica dum hospital. Isto que conto soube-o por um jornal, logo, os seus jornalistas deveriam conhecer a perigosidade do par. A história era contada em duas páginas. No hospital, o homem que batia na mãe e a mulher que atropelou um cliente para o roubar e com ele no chão lhe esfaqueou a cabeça conheceram-se, apaixonaram-se e fugiram num domingo, dois dias antes de a notícia ser publicada.
Depois da fuga, o casal roubou um carro e rumou para uma casa da aldeia do homem. Ele vivia numa freguesia de 925 pessoas (censo de 2011), onde todos se conhecem e quotidianamente se cruzam. De madrugada, o homem foi a casa dum amigo, deixou lá a companheira e, no dia seguinte, partiu sozinho para assaltar uma pastelaria. Na estrada encontrou uma barreira da GNR, atirou o carro contra o carro dos guardas, fugiu a pé pelos montes mas foi preso. Alucinado. Já vos disse? Eu sei, é só para lembrar que os jornalistas do jornal também o sabiam.
Como já disse, a notícia tinha duas páginas. Na par, havia uma caixa sobre um pormenor e com este título: "Amigo que deu abrigo alertou as autoridades." No texto, o jornal repetia que o cidadão XXX - isto sou eu a ter o cuidado de não dar o nome, o jornal pôs o nome verdadeiro - denunciou os fugitivos: "(...) na primeira oportunidade alertou a GNR". O jornal falou com o pobre homem, "ainda assustado". O texto é ilustrado por uma foto deste, à porta, falando com a repórter do jornal. A foto é feita de longe, é de supor que o homem "ainda assustado" não quis ser fotografado. A legenda: "XXX [o jornal voltou a pôr-lhe o nome verdadeiro] acolheu casal"...
O que eu quero dizer é o seguinte: um alucinado, que daqui a meses será posto à solta, sabe que na sua aldeia há um amigo que o denunciou. Não suspeita, sabe. Escrito, e até em letras gordas, e fotografado por um jornal. Com o nome escarrapachado e foto tirada à socapa, mas visível, à porta de casa. Aquele cidadão estava, no dia seguinte, "ainda assustado", disse o jornal. Eu tenho a certeza de que hoje, cerca de dois meses depois da notícia, o pobre homem continua assustado. Ele deve tremer a pensar na data dum determinado mandado de soltura.
E era aqui que queria chegar. Eu sei que os jornais precisam de ter um órgão regulador que controle aquele enorme poder que eles têm. E sei que a canalhice e a burrice (mais esta) de alguns jornalistas os leva, aos jornais, a cometer erros que podem ter consequências graves, até fatais. Nas duas páginas irresponsáveis narradas acima, caso um drama aconteça, os advogados do patrão saberão escamotear as culpas do jornal - o direito de informar, um bem sagrado, também pode ser refúgio de canalhas e/ou burros. Por isso é bom que haja uma entidade específica que proteja todos, e sobretudo os mais frágeis, dos desmandos do jornalismo. Uma entidade que esteja atenta, critique e multe quando crianças vítimas de crimes são fotografadas e inocentes são difamados. E, como no caso narrado, cidadãos são colocados em perigo pela irresponsabilidade jornalística.
Ora, por estes dias o que preocupou os deputados dos grandes partidos foi desviar a vigilância aos jornais para a sua coutada. Os deputados queriam mais um órgão (comissão mista) ao qual os jornais deveriam submeter para visto prévio o seu plano de cobertura das eleições. Desde logo, a sugestão do visto prévio até inoportuna foi, pecado menor (o maior é que é indefensável, ponto final), porque apresentada nas vésperas da data, o 25 de Abril, que aboliu a censura. Depois, o processo foi deixado para a ponta final da legislatura, a poucos meses da campanha eleitoral, dando a ideia duma emboscada. E feita por eles (deputados) à pressa, pedia, paradoxalmente, aos outros (os jornais) planeamento... Enfim, uma trapalhada. A proposta teve o destino merecido: falou-se um pouco e escorreu pelo ralo, envergonhada.
Mas o episódio vale pela confirmação da igualdade vigente, em que uns são mais iguais do que outros. Casos infames de jornais - como oferecer publicamente um cidadão a próxima e mais do que provável tareia (no melhor dos casos...) por parte dum alucinado - passam sem a punição necessária. Toca ao povo, indiferença. Mas quando toca aos pretendidos abusos dos jornais sobre os representantes do povo estes já são tesos (enfim, durante algumas horas).
FERREIRA FERNANDES
Hoje no DN

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A Assembleia de Freguesia de 23/04/2015:

Foi muita discutida, não no aspecto de soluções para Freamunde, no que toca a obras e ideias e, por parte do PSD foi um fracasso. Falam e voltam a falar. Dizem sempre o mesmo. Que se resume a nada. Esteve sempre isolado. Até a coligação da CDU pôs-se de parte no que toca a críticas e mostrou que sabe, ou deu a entender, que está a par das resoluções que a Junta de Freguesia tem para Freamunde, assim mostrando que o quer é o desenvolvimento de Freamunde.
O PSD veio com o “rambe”, “rambe”, dando a entender que o que queria era prolongar a assembleia para altas horas da madrugada. Dá a entender que tem medo das questões que o público tem a pôr ou a criticar a sua actuação. Mesmo assim a assembleia teve o seu término às 01 horas e 10 minutos da madrugada. Começou às 21 horas e 30 minutos.
Não percebo tantas intervenções da parte do PSD para sempre dizer o mesmo – “diz-se ou “sabe-se”. A ser assim as assembleias da Assembleia de Freguesia de Freamunde mais cedo que tarde não vai ter ninguém a assistir. O que é uma pena. Não há democracia sem povo.
Este intróito serve para ilustrar a minha intervenção que abaixo descrevo. Não a consegui descrever toda dado o pouco tempo que é dado ao público para intervir. Estou de acordo com a senhora Presidente da Assembleia de Freguesia da sua imparcialidade. Mas entendo que quem ali está horas e horas devia de ter mais um pouco de tempo. Preparei-a uns dias antes o que levou parte das minhas ideias ter sido discutidas por parte dos deputados do PS antes de mim. Aqui vai:
“Antes de tudo queria fazer um pedido à senhora Presidente da Assembleia de Freguesia que consiste no seguinte: Porque não alterar a ordem de trabalhos. Assim passava a intervenção do público em primeiro lugar o que dava matéria para ser discutida na assembleia se os temas assim o exigirem e não obrigava o mesmo – público – a estar horas e horas à espera para pôr as suas sugestões. Também faço um apelo para que sempre que os deputados tenham de intervir se levantem para o público que assiste saber de quem se trata. Pela voz é difícil.
Continuando:
Nada me surpreende do que se disse nesta assembleia por parte do PSD. Tudo critica e nada assume. Se tivesse a hombridade de fazer uma autocritica veria o que de mal se fez no centro de Freamunde no período dos seus mandatos. Criticam o abate das árvores mas não se lembram do que se fez à Praça do Mercado. Depois de construída e inaugurada passados vinte anos há que destruir tudo com prejuízo para o erário público, caso das indeminizações aos inquilinos e do preço do custo da obra. Assim, dá para entender que obra foi essa! Para mim foi um bico-de-obra. Se assim não fosse não a destruíam. Mas o mais importante ninguém sabe do que dali foi retirado: pedras, traves de madeira riga e gradeamento. Há quem diga que as pedras foram vistas noutros locais. A mim confirmaram-me que estavam no local para onde foi determinado: Fábrica Grande. Outros dizem que não. Achava oportuno a Junta de Freguesia inteirar-se – se é que não está inteirada – do que foi feito a esse material. Para não subsistir dúvidas a população de Freamunde merece um esclarecimento.
Mas aqui a oposição só critica as obras de beneficiação do Largo de S. António a Xistos. Comenta o abate de árvores que foi feito à beira do Coreto da Música. Em frente à Associação dos Socorros Mútuos e Quartel da antiga Legião Portuguesa ali também existiam Plátanos e nada houve que dizer quando foram votadas abaixo assim como as tílias onde existe hoje o anfiteatro. E não foi esta junta ou o PS a ter essa determinação. Só criticam o abate das quatro árvores. Para mim iam as outras sete, com a plantação de igual número de porte mais pequeno. Porque queiramos ou não daqui a uma década de anos o problema da doença nas restantes árvores vai surgir.
Depois só sabem fazer críticas e não assumem as suas responsabilidades. Como se sabe as eleições autárquicas de dois mil e treze deu o seguinte resultado: dois vereadores para o PS, dois para o PSD e um para a CDU. Aqui se houvesse interesse pelo bem de Freamunde haveria um arregaçar de mangas e todos contribuíam para essas mesmas resoluções. Ou então davam liberdade de acção como fez o PS na outra legislatura. De certeza que aceitavam e não faziam como o PSD de não fazer uma única assembleia de freguesia.
Assim, tem na junta de freguesia um vereador que tem obrigação de os pôr ao corrente das decisões que a Junta de Freguesia toma. De certeza que é discutida entre os membros da Junta de Freguesia as decisões tomadas. Existem projectos. Se não o faz a ele devem pedir responsabilidades. Não é acusar os membros da junta de freguesia de nada dizerem. Mas não. O que o PSD quis foi lavar as mãos como Pôncio Pilatos. Só tem interesse em governar sozinho. Coligado não se sente bem. Aliás a prova disso foi o abandono dos seus cabeças de lista. Tudo argumentaram para se porem a “sete pés”. E o que ficou! Os de segunda escolha.
E jogam com a argumentação que tudo que a Junta de Freguesia faz ou tem previsto fazer é uma aberração. Em quase nada estão de acordo. Com isto não têm a visão de ver – perdoem-me o pleonasmo – que estão a cavar a sua própria sepultura. E… não se apercebem que a maioria dos Freamundenses já não vai na sua cantiga.
Depois saem com um comunicado “Nós Amamos Sempre Freamunde”. Quem o lê fica admirado. Só falam em “Sabe-se” e “Diz-se”. Tem dezoito pontos que falam de muita coisa mas tudo é para inglês ver. Senão atentemos.
Quem ama Freamunde! Julgo que todos os Freamundenses. O que há é forma de o demonstrar. E a demonstração do PSD por Freamunde está bem demonstrada. Como não ganharam as eleições os seus cabeças de lista abandonaram, dando a entender, que as promessas que fizeram ao eleitorado era um embuste. António Correia, Manuel Carneiro e Samantra Taipa não demoraram a abandonar o barco. Foram contactados os que se seguiam na lista tendo alguns declinado o convite o que levou a Presidente da Assembleia de Freguesia a contactar os outros nomes que se seguiam.
Também dizem que esta Junta de Freguesia não dá “cavaco à tropa”. Que se saiba de três em três meses há uma assembleia de freguesia. Aqui todos podem expor os seus problemas. Coisa contrária dos últimos quatro anos em que o PSD detinha a Presidência da Junta. Não houve uma única assembleia de freguesia mas aqui o PSD não se refere a nada. Dá para dizer: olha para o que eu digo e não para o que faço.
No referido comunicado dizem que amam Freamunde. Continuo a dizer: que forma de o demonstrar. Volto a referir o atentemos. Numa Assembleia Municipal um deputado do PSD de nome José Luís Costa disse que Humberto Brito, Presidente da Câmara, só tinha olhos para os três Efes: Freamunde, Ferreira e Figueiró, as únicas freguesias governadas pelo PS. De Ferreira e Figueiró os seus habitantes que defendam a sua dama. Agora de Freamunde não deixo passar em claro. É que também amo Freamunde e não há partido que me sobreponha aos interesses de Freamunde. Ao contrário de muitos.
Que se saiba nos elementos do PSD que compõem o PSD do Concelho há deputados nascidos e criados em Freamunde. Acontece que estes deputados ao ouvir o dito de José Luís Costa não tossiram ou mugiram concordando com a demagogia do dito deputado. Também não vi ou li os representantes do PSD de Freamunde que fazem parte da Junta e da Assembleia de Freguesia a condenar esse deputado. O que leva a crer – na opinião deles – que Freamunde está a ser beneficiado. Caso contrário julgo que criticavam o referido deputado.
Li de fio a pavio o comunicado do PSD que fala da Requalificação do Centro Cívico de Freamunde e quando cheguei ao seu fim li a frase de Abraham Lincoln: “A democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo. Nada mais correcto dito por este grande estadista. Só que quando li a data do comunicado verifiquei que era do dia 1 de Abril de 2015 e disse logo para os meus botões: bem me parecia que era esta a mentira do dia das mentiras por parte do PSD – salvo a referência a Abraham Lincoln. E volto a repetir a frase que disse mais acima: olha para o que digo e não para o que faço.
A ser assim e com esta oposição o PS nas próximas eleições vai ganhar com uma maioria absoluta. Por tudo que tem feito em prol de Freamunde: arranjo e limpeza das rotundas, ruas e jardins, arranjo das entradas nos cemitérios 1 e 2, futuro Quartel da GNR, pintura da parte exterior onde a GNR está alocada neste momento, tratamento das árvores, mais funcionários a trabalhar para a junta de freguesia etc. etc. etc. Podem argumentar que a Câmara Municipal tem dado o seu contributo. É claro que sim. Mas se não houvesse a persistência da Presidente da Junta de Freguesia de Freamunde, Armanda Fernandez, não sei se estas obras estavam a decorrer. É que ao contrário do olha para o que digo e não para o que faço o PS contradiz: olha para o que faço e não para o que digo.
Como disse vão ficar admirados numas próximas eleições autárquicas de Armanda Fernandez – caso queira concorrer – ganhar com maioria absoluta. A continuar assim aos Freamundenses nada vai admirar. É que com aposições assim é fácil governar.
Caso a senhora Presidente da Assembleia entenda que esta minha argumentação seja transcrita para a acta – gostaria que o fosse para memória futura – ofereço estas folhas para que a Secretária da Assembleia as copie”.
Disse.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

E, apesar de tudo, Passos Coelho é primeiro-ministro:

A morte do homem público é, tradicionalmente, um momento em que convergem a banalidade e a hipocrisia. Faz parte da natureza humana. Na hora de comentar o desaparecimento de alguém, não falta quem se acotovele para elogiar, enaltecer, enfim, bem-dizer o defunto. No fundo, todos são extraordinários no momento em que desaparecem do mundo dos vivos. E tudo porque, quem não tem nada para dizer além do óbvio não resiste à tentação de abrir a boca.
Vem esta reflexão, pouco mais do que banal, a propósito de Mariano Gago. Confrontado com a notícia, e antes de proclamar as costumeiras trivialidades, Pedro Passos Coelho não encontrou melhor forma de iniciar o elogio fúnebre do que dizer "apesar de ter servido em governos do Partido Socialista...", como se a relevância de alguém se medisse pela cor da camisola que veste.
Além de uma falta de sensibilidade chocante, o que a afirmação do primeiro-ministro revela são vários traços que não deixam de merecer reparo. Em primeiro lugar, Pedro Passos Coelho confessa um ódio político inexplicável e intolerável a tudo o que não seja laranja. Como se ter sido servidor público num governo que não o seu ou numa administração que não mereça o seu apoio, seja uma espécie de maldição ou anátema que diminui a dignidade de alguém. Isto é, Passos surpreende pelo sectarismo próprio de outras paragens políticas que não são habituais nas águas em que o primeiro-ministro navega.
Por outro lado, declara uma razoável falta de sentido de Estado. Depois de afirmada a reserva mental contida na expressão "apesar de...", bem pode Passos Coelho dizer que não é tempo de recordar as diferenças, que o mal já está feito. Como se a grandeza e o legado de um homem com o currículo de Mariano Gago não esteja muito para além das baias partidárias.
Por fim, Pedro Passos Coelho não está mais do que a cometer um vitupério grosseiro. Arrancar um elogio com o prefixo "apesar de...", não é mais do que elogio em boca própria. Na verdade, o que o primeiro-ministro está a dizer é que, apesar de Mariano Gago ser alguém por quem tinha o mais profundo desprezo político e uma total falta de consideração partidária, é tão magnânimo que, na hora da sua morte, é capaz de pôr tudo isso para trás das costas, e reconhecer que ele até deu "um contributo inestimável para o progresso da ciência em Portugal".
NUNO SARAIVA
Ontem no DN

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Ódio de perdição:

Marta Nogueira, 21 anos, Joana Nogueira, 23. Primas. Anteontem de manhã, na pastelaria onde trabalhavam, no Pinhão, Trás--os-Montes, um homem entrou e apontou a arma para matar, para apagar, para desfigurar: cara, pescoço, cabeça. Joana morreu, Marta está em coma. Os jornais - este jornal - titulam: "Ciúme levou Manuel a disparar." Manuel, parece, tivera namoro com Marta. O crime passa logo, então, à categoria "passional". Como quem diz de amor, de sentimento, "que levam a".
É sempre assim: homem mata mulher? Coitado, gostava demasiado dela, e ela ou o "deixou", ou ele tinha medo que ela o "deixasse", ou ela "portava-se mal", ou ele tinha medo que ela se "portasse mal". Mesmo, note-se, quando uma das mortas é prima do alegado objeto de amor; estamos perante o crime passional por afinidade. Porque será, então, que o homicídio do bebé de 5 meses que o pai esfaqueou há uma semana depois, diz-se, de ligar à mãe da criança a ameaçá-la, não é "de paixão"? Será porque a desculpabilização implícita, a "naturalização" e "contextualização" que induz, não é aceitável na morte de crianças? Porque nada pode justificar que se mate uma criança enquanto uma mulher, tantas mulheres, é outra coisa?
É para contextualizar? Contextualizemos. Até 1975, o Código Penal português incluía aquilo que nos países muçulmanos o Ocidente reputa de bárbaro: crimes de honra. Permitia-se ao marido enganado matar a mulher e o respetivo amante sem mais castigo que uns meses fora da comarca; o mesmo para o pai que matasse as filhas "desonradas" se menores de 21 e a viver "sob o pátrio poder". O Código Civil autorizava repudiar a mulher que fosse não virgem para o casamento, no qual estava submetida ao "chefe de família", que podia abrir-lhe a correspondência, dar--lhe ou não autorização para ter emprego e decidia tudo sobre os filhos (a mãe tinha "o direito de ser ouvida"). A mulher era ainda obrigada a viver com o marido, que podia exigir à polícia a sua devolução caso fugisse. Isto tudo era lei, há 40 anos. Era lei a submissão da mulher, era legal este desprezo que a tratava como menos que pessoa inteira, a nomeava e manietava como propriedade masculina.
A lei mudou mas o sentimento que esta consagrava e propagava não se vai tão rápido. A desculpabilização "passional" substituiu a da "honra"; subsiste a ideia de que "elas dão motivos" - como diziam os que à porta do tribunal aplaudiam Palito, o homem que há exatamente um ano, a 17 de abril de 2014, matou a ex-sogra e a irmã desta e feriu a ex-mulher e a própria filha: "Lá teve as suas razões." A própria justiça o admite, em acórdãos vergonhosos nos quais nunca se invoca isso que o Brasil no mês passado tipificou no Código Penal como feminicídio - o ódio às mulheres que mata. Cá não, é por amor. Em 15 semanas de 2015, já foram, de tão amadas, mortas onze. Somos assim românticos.
FERNANDA CÂNCIO
Hoje no DN

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Quem não faz batota que jogue a primeira pedra:

Um mestre georgiano fez batota num torneio de xadrez. Entre duas jogadas, Gaioz Nigalidze foi à casa de banho e consultou o programa de xadrez do seu telemóvel. Fazer batota no xadrez deve ser comum, como em todos os jogos humanos. Alguma mezinha haverá que potencia a desumana memória dos grandes mestres. Já para não falar nos golpes baixos: o olhar maluco de Bobby Fischer atemorizou mais do que um adversário. Aliás, Nigalidze jogava contra Tigran Petrosian, bicampeão arménio, quando fingiu dores de barriga. Ora este Tigran Petrosian tem um homónimo, morto há 30 anos, ex-campeão mundial (e único xadrezista que ganhou um jogo a Fischer). Não é pressão batoteira usar um nome tão poderoso? Mas o truque do georgiano ilustra a chegada do xadrez à batota para lá do uso de drogas ou truques psicológicos. Há dias, soube-se das suspeitas dos organismos do ciclismo mundial sobre os minimotores nas bicicletas de corrida. Um bom programa de xadrez ganha a qualquer campeão, num desporto em que no mundo só 20 ficam ricos a praticá-lo. Logo, haverá mais casos iguais ao do batoteiro georgiano. Na sua última novela, O Xadrezista, o exilado Stefan Zweig conta a história do amador de xadrez que, preso pela Gestapo, memorizou grandes jogadas. Mais tarde, o ex-prisioneiro, porque só jogava por diversão, recusou uma vitória certa contra um campeão nazi. Mas só em literatura se joga por diversão. Duas semanas depois de O Xadrezista, Zweig suicidou-se.
Ferreira Fernandes
No DN de hoje

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Anatomia e dissecação de um colossal falhanço:

Fez no dia 6 de abril quatro anos que Portugal pediu ajuda internacional. É mais do que tempo de fazer o balanço dos erros, mentiras e traições deste período e desconstruir o discurso que os vencedores têm produzido sobre o que se passou.
1 A 4 de abril, Angela Merkel elogia os esforços do Governo português para combater a crise, através de um novo plano de austeridade, o PEC 4. Com o apoio da chanceler alemã e do presidente da Comissão Europeia havia a real possibilidade de Portugal conseguir um resgate mais suave, idêntico ao que Espanha depois veio a ter. O primeiro-ministro, José Sócrates, dá conta ao líder da oposição, Pedro Passos Coelho, do que se passa. Este, pressionado pelo seu mentor e principal apoio partidário, Miguel Relvas, recusa-se a deixar passar o PEC 4, dizendo que não sabia de nada e que não apoiava novos sacrifícios. O seu objetivo é a queda do Governo e eleições antecipadas (ver o livro “Resgatados”, dos insuspeitos jornalistas David Dinis e Hugo Filipe Coelho). O Presidente da República, Cavaco Silva, faz um violento ataque ao Governo no seu discurso de posse, a 4 de abril, afirmando não haver espaço para mais austeridade. Os banqueiros em concertação pressionavam o ministro das Finanças. Teixeira dos Santos cede e coloca o primeiro-ministro perante o facto consumado, ao anunciar ao “Jornal de Negócios” que Portugal precisa de recorrer aos mecanismos de ajuda disponíveis. Sócrates é forçado a pedir a intervenção da troika. Merkel recebe a notícia com estupefação e irritação.
2 O memorando de entendimento (MoU) é saudado por políticos alinhados com a futura maioria, por economistas de águas doces, por banqueiros cúpidos e por comentadores fundamentalistas e bastas vezes ignorantes, pois, segundo eles, por cá nunca ninguém conseguiria elaborar tal maravilha. Hoje, pegando nas projeções para a economia portuguesa contidas no MoU, é espantoso constatar a disparidade com o que aconteceu. Em vez de um ano de austeridade tivemos três. Em vez de uma recessão não superior a 4%, tivemos quase 8%. Em vez de um ajustamento em 2/3 pelo lado da despesa e 1/3 pelo lado da receita, tivemos exatamente o contrário: uma austeridade de 23 mil milhões reduziu o défice orçamental em apenas 9 mil milhões. Em vez de um desemprego na casa dos 13%, ultrapassámos os 17%. Em vez de uma emigração que não estava prevista, vimos sair do país mais de 300 mil pessoas. E em vez da recuperação ser forte e assente nas exportações e no investimento, ela está a ser lenta e anémica, assentando nas exportações e no consumo interno. A única coisa que não falhou foi o regresso da República aos mercados. Mas tal seria possível sem as palavras do governador do BCE, Mario Draghi, no verão de 2013, ou sem o programa de compra de dívida pública dos países da zona euro? Alguém acredita que teríamos as atuais taxas de juro se não fosse isso, quando as agências de rating mantêm em lixo a nossa dívida pública? Só mesmo quem crê em contos de crianças.
3 Durante o período de ajustamento, Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, sublinhou sempre que o nosso sistema financeiro estava sólido. Afinal, não só não estava sólido como tinha mais buracos do que um queijo gruyère. BCP, BPI e Banif tiveram de recorrer à linha pública de capitalização incluída no memorando da troika, o BES implodiu, a CGD foi obrigada a fazer dois aumentos de capital subscritos pelo Estado, o Montepio está em sérias dificuldades — e só o Santander escapou.
4 O ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, e o primeiro responsável da troika, Poul Thomsen, negaram durante dois anos que houvesse um problema de esmagamento de crédito às empresas. Pelos vistos desconheciam que a esmagadora maioria das PME sempre teve falta de capital, funcionando com base no crédito bancário. Como os bancos foram obrigados a cortar drástica e rapidamente os seus rácios de crédito, milhares de empresas colapsaram, fazendo disparar o desemprego. Gaspar e a troika diriam depois terem sido surpreendidos com esta evolução. A sobranceria dos que se baseiam na infalibilidade do Excel, aliada à ignorância dos que pensam que a mesma receita funciona em qualquer lugar, tem estes resultados.
Alguém acredita que teríamos as atuais taxas de juro se não fosse o BCE e Draghi, com a nossa dívida pública a continuar a ser considerada lixo? Só mesmo quem crê em contos de crianças.
5 Passos Coelho disse e redisse que as privatizações tornariam a economia portuguesa muito mais competitiva, levando os preços praticados a descer. Pois bem, a EDP foi vendida a muito bom preço porque as autoridades garantiram aos chineses da Three Gorges que os consumidores portugueses continuariam a pagar uma elevada fatura energética. E assim tem sido. Os franceses da Vinci pagaram muito pela concessão da ANA porque lhes foi garantido que poderiam subir as taxas sempre que o movimento aeroportuário aumentasse. Já o fizeram por cinco vezes. O Governo acabou com a golden share na PT e não obstou à saída da CGD do capital da telefónica. Depois assistiu, impávido e sereno, ao desmoronamento da operadora. A CGD foi obrigada pelo Governo a vender por um mau preço a sua participação na Cimpor. Hoje, a cimenteira é uma sombra do que foi: deixou de ser um centro de decisão, de competência e de emprego da engenharia nacional. Os CTT foram privatizados e aumentaram exponencialmente os resultados, à custa da redução do número de balcões e da frequência na entrega do correio.
6 A famosa reforma do Estado resumiu-se na prática a aumentar impostos, cortar salários, pensões e apoios sociais, bem como a fragilizar as relações laborais, flexibilizando o despedimento individual, diminuindo o valor das indemnizações, reduzindo o valor do subsídio de desemprego e o seu tempo de duração. O modelo económico passou a assentar numa mão de obra qualificada mas mal paga, em empregos precários e não inovadores, em trabalhadores temerosos e nada motivados.
7 O programa de ajustamento fez Portugal recuar quase 15 anos. Perdemos centro de decisão e de competência e não apareceram outros. A classe média proletariza-se sob o peso dos impostos. Nos hospitais reaparecem doenças e epidemias há muito erradicadas. O investimento estrangeiro estruturante não veio, o perfil da economia e das exportações não se alterou, a aposta na investigação eclipsou-se. E tudo para se chegar a um ponto em que a troika nos continua a dizer que já fizemos muito mas que é preciso fazer mais — e os credores internacionais nos vão manter sob vigilância até 2035. Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade mostra que este ajustamento não teve apenas algumas coisas que correram mal — foi um colossal falhanço. E, desgraçadamente, os próximos anos vão confirmá-lo.
Nicolau Santos
Expresso 11/04/2015

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Como os bandidos:

A manifestação/concentração de 14 de novembro de 2012 à frente do parlamento, lembram-se? Foi aquela em que a polícia, de capacete e fato antimotim, esteve a levar com pedras do passeio, arremessadas por meia dúzia de pessoas, durante uma - inexplicável - hora. Ao fim da qual avançou e varreu à bastonada a praça e todas as ruas, circundantes e não circundantes, até ao Cais do Sodré, agrediu dezenas e prendeu outras dezenas de pessoas.
Pois bem: mais de dois anos depois, aliás, dois anos, quatro meses e duas semanas depois, a 1 de abril (adequado, como se verá), soube-se do resultado da averiguação efetuada pela Inspeção-Geral da Administração Interna. E sabemo-lo por um jornal, o Sol, que "teve acesso ao relatório", porque acesso público - por exemplo no site da instituição, onde seria de esperar ver o dito - não existe. Aliás, mesmo para jornalistas, fui informada, só por requerimento e "tem de ir a despacho".
Criada há 20 anos, na sequência da horripilante decapitação de um cidadão no posto da GNR de Sacavém, a IGAI surgiu como a grande esperança de que as forças policiais fossem na sua atuação alvo de fiscalização e formação no sentido de respeitarem a lei - incluindo, naturalmente, os deveres de respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos, razão de ser primeira das polícias. Mas o tempo incompreensível ocorrido desde os acontecimentos até, segundo o Sol, o relatório ficar "disponível" (para quem?) e os excertos reproduzidos esmorecem a expectativa. Diz então a IGAI que houve "abuso de poderes funcionais" por parte dos agentes. Enumera: "empunhar o bastão com o cotovelo acima do ombro" (dando balanço); bater na cabeça (e até na cara, num dos casos reportados pelo relatório); conduções ilegais a esquadra "para identificação"; colocação de pessoas, nem sequer detidas formalmente, em celas; etc. Menciona por exemplo um bombeiro que, indo para o trabalho, foi apanhado na confusão e acabou cinco dias no hospital e uma jovem de 17 anos que diz terem-na obrigado a despir-se integralmente e a pôr-se, nua, de cócoras (fez queixa ao DIAP, que arquivou), entre outros. Conclusão da IGAI: se a conduta dos agentes em causa "mereceria certamente censura e ação disciplinar", como "as caras estavam escondidas pelos capacetes e viseiras" nada se pode fazer. O mesmo quanto às nove pessoas que alegam ter sido agredidas na casa de banho da esquadra do Calvário por "agentes embuçados": "Uma agressão poderia produzir gritos e estes seriam ouvidos pelas muitas pessoas que estavam na esquadra", cita o Sol. Mas "mesmo que houvesse prova, os seus autores não poderiam ser reconhecidos" - estavam embuçados, então. O jornal resume: "Tudo arquivado." Pode acrescentar-se: batam, prendam ilegalmente, torturem, desvirtuem por completo a vossa missão, envergonhem o vosso uniforme, senhores polícias. Desde que ninguém filme e tapem a cara, da IGAI (que também pode pintá-la de preto, já agora) não esperem castigo.
FERNANDA CÂNCIO
Hoje no DN