A história mostra que toda a grandeza, seja dos indivíduos ou das
nações, só se consegue quando se olha para o tempo longo, como alguém que
contempla um extenso vale a partir de uma alta montanha. A empresa dos
Descobrimentos só foi possível pela coerência das políticas que vão de Ceuta à
chegada de Gama à Índia. Para que o "Estado social" escandinavo ou a
modernização sul-coreana tivessem ocorrido foram precisas décadas de
persistência política. Os resultados positivos no SNS português implicaram 40
anos de continuidade. Esse é o método da estratégia, que implica visão e
firmeza no rumo. O método de quem aprende a criar e a contar com um tempo
previsível. Pelo contrário, "a saída limpa", anunciada ontem pelo
primeiro-ministro - num estilo épico inapropriado -, representa a vitória do
tempo mínimo. O triunfo da tática parcelar e fragmentar. A nossa "saída
limpa" não espelha a nossa liberdade reconquistada, mas o nosso abandono
por parte dos países que, connosco, formam o corpo da zona euro, onde deveria
reinar a solidariedade, mas impera um egoísmo vesgo e malsão. Ficamos, para já,
entregues ao "programa cautelar" endógeno e improvisado de uma "almofada
financeira", que nos custa milhões, mesmo sem ser usada, sobretudo para
não ser usada. Ficamos à mercê de forças que não controlamos, sejam elas o
humor dos mercados, as decisões dos bancos centrais mundiais, a incerteza sobre
o rebentar das bolhas chinesas (do crédito e do imobiliário), a sorte das armas
na guerra civil ucraniana. Como poderemos esperar que nesse solo estéril as
sementes da confiança, do investimento e do desenvolvimento possam crescer? A
zona euro transformou-se numa planura desértica. Sem estadistas visionários que
escalem montanhas para vislumbrar o melhor rumo para o bem comum de todos os
europeus.
VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
Hoje no DN




