segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Faleceu João Taipa. Paz à sua alma:

Foi no dia dois do dois de dois mil e catorze. Podia ser seu filho mas ainda joguei futebol no Sport Clube de Freamunde com ele. Quando subi à categoria de seniores, ano de mil novecentos e sessenta e seis, podia jogar a prova extra nos juniores, mas tanto eu como o falecido Luís Afonso e o Alcino subimos a seniores. Nesse ano Fialho era treinador/jogador do Sport Clube de Freamunde e não chegou a acabar a época tendo João Taipa, julgo, que também o Barbosa assumido o comando do Sport Clube de Freamunde. A prova extra - Taça José Bacelar - foi orientada por estes dois atletas.
Mais tarde o Sport Clube de Freamunde fez o jogo de homenagem a João Taipa tendo o Freamunde defrontado o F. C. Penafiel e o F. C. Porto o Vitória de Guimarães. Julgo que entre Freamunde e Penafiel o resultado foi de dois a dois tendo marcado o segundo golo do Penafiel o Nartanga. Era um jogador bastante alto e tirava partido disso com os seus golos de cabeça.
 Tive sempre admiração por João Taipa pois era um grande amigo do meu falecido pai. Como prova de carinho há uns anos elaborei um vídeo das personagens que faziam parte do livro “Pedaços de Nós” com ilustração de Vitorino Ribeiro e versos de António “Rodela” e tive a particularidade de separar, mais tarde, o verso de João Taipa o qual acrescento a este texto.
À família endereço os meus mais sentidos pêsames e homens como João Taipa só desaparecem fisicamente. Por que pessoas como ele ficam sempre no coração dos Freamundenses. E… no meu também.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O dia tinha nascido às cinco e quarenta e cinco minutos:

Como de costume um céu brilhante a fazer crer que ia ser mais um dia de bastante calor. Regra geral era trinta e quatro, trinta e cinco graus celsius de máxima e vinte e quatro de mínima. O corneteiro tinha tocado a alvorada. O segundo pelotão foi tomar o pequeno-almoço pois de seguida tinha-se de pôr de abalada para mais um reconhecimento (operação militar) aos vários acampamentos do nosso inimigo que existiam na floresta do Quifuso. Íamos ser transportados de Unimogue (burro do mato) até perto da Beira Baixa para dali entrarmos na dita floresta. Mal acabamos de entrar deparamos com um laranjal e neste vários homens a quem chamávamos turras. Houve troca de tiros e fizemos um morto ao inimigo.
Seguimos o nosso itinerário e podemos ver estendido no chão o corpo inerte do tal inimigo. Pelo aspecto não tinha mais de vinte e poucos anos. Na flor da idade dizia adeus à vida. A vida era isso. Por isso o matar para não morrer. O Alferes foi aconselhado pelo nosso guia a mudarmos de objectivo porque íamos ter o inimigo sempre na nossa peugada. E tal como o nosso guia previa tivemos durante esse dia o inimigo a molestar-nos. Quando tínhamos arranjado um lugar propício para almoçar tivemos tiroteio o que felizmente não nos trouxe qualquer baixa ou ferido a não ser um arrepio que nos correu pela espinha das costas acima. A vida de soldado na guerrilha ultramarina era isto. Sobressalto atrás de sobressalto.
Assim depois de acabar o tiroteio há que recolher todos os nossos haveres e pormos em marcha. Olhávamos para o semblante de cada um e notávamos um certo receio. Mesmo assim pusemos pé a caminho e fomos ter a um local onde antes três meses tínhamos realizado uma operação a nível de sector. Nesta operação intervieram dois pelotões da minha companhia, onde eu e o cabo rádio telefonista Sancho, éramos os radio-telefonistas de serviço. Lembras-te Sancho?
As operações a nível de sector compreendiam, além de nós, as tropas dos Comandos, Paraquedistas e a Força aérea com os aviões F 16... Estes momentos vividos e agora lembrados ainda me causam uma sensação de angústia. De angústia porque nunca fomos uns malfeitores ou assassinos. Unicamente tínhamos de salvar a nossa vida. É como diz Paco Bandeira na canção: “Ter de matar p´ra não morrer”.
Éramos tratados de voluntários mas éramos uns voluntários obrigados. Quantos de nós quando ia para a mata pensava que podia ser a última vez. Tinha alturas que pensava isso. Mas vinha logo um pensamento positivo. Era azar de mais entre tantos vir logo uma bala destinada a mim. O que é certo, é que às vezes vinham e sem remetente.
Demos seguimento ao reconhecimento embora o traçado já estivesse todo alterado. Os nervos andavam alterados. E… ainda mais quando estávamos num certo sítio e apareceu a aviação a bombardear o acampamento de que seguida tínhamos de lançar um golpe de mão. O meu alferes vendo a aviação por cima de nós mandou-me entrar em contacto com ela prevenindo-os desse facto. E lá comecei eu a chamar: Pássaro, pássaro, aqui cobra, escuto. E lá ouvi: Cobra aqui pássaro transmita, escuto. Correcto. É para informar que estamos dentro do círculo e o meu maior pede atenção da vossa parte. Ok. Recebi correcto e informa o teu maior que sabemos o que estamos a fazer pois tanto nós como vós encontramo-nos dentro das coordenadas. Mais informa o teu maior para ganhar coragem para o assalto ao acampamento e que tenhais sorte. Ok. Recebi correcto e obrigado pelo estímulo.
De seguida iniciamos o golpe de mão e só encontramos animais abandonados. O inimigo tinha abalado. O mais bonito é que depois dos reconhecimentos não se via vivalma nenhuma. Ainda bem porque não tínhamos interesse no confronto. Permanecemos ali algum tempo e podemos ver como estava bem delineado o acampamento. As cubatas eram feitas através de cana de bambu e capim. Debaixo de uma densa mata com imbondeiros e outras árvores densas o que favorecia a sombra e protegia o acampamento do bombardeamento feito pela aviação. Regra geral era nas proximidades de um rio. Depois de feito todo o reconhecimento à que dar de abalada pois tínhamos outros objectivos e sabíamos que íamos ter o inimigo atrás de nós.
O reconhecimento estava no seu final. Agora era a vinda que nos preocupava. Regra geral nunca vínhamos pelo trilho mas sim a corta mato. Dava mais trabalho e demorava mais mas era mais seguro. Em fila indiana e com precaução vínhamos satisfeitos pois o reconhecimento tinha decorrido dentro do previsto. Daqui para a frente era manter a vigilância adequada que o caminho fazia-se caminhando. Entrei em contacto com a rede rádio da companhia a dar-lhes o horário e as coordenadas para onde íamos. Escusado será dizer que quando ali chegamos montamos um perímetro de segurança para não cairmos em nenhuma emboscada quer nós quer a coluna motorizada que nos vinha buscar. Nesta situação todo o cuidado é pouco.
Estávamos ansiosos por chegar ao quartel. Tantas vezes dizíamos mal dele e agora reconhecíamos o quanto nos fazia falta. Só sabemos dar valor às coisas quando não as temos. Foi o que aconteceu nestes três dias. A falta que sentimos da cama, do duche, de uma comida quente, duma Cuca ou Nokal no bar do soldado e de uma conversa em voz alta. Mas ainda bem que estávamos a menos de uma hora de chegarmos à nossa “casa”.
Já via os meus colegas de transmissões a abraçar-me por tudo correr bem. Era também o que sentia toda a corporação. Um por todos e todos por um. Depois de entregar o material de transmissões no posto de rádio desloquei-me para a camarata para me preparar para o duche. Ali desfiz a barba e saboreei a água que caía do bidão – fazia de depósito – morna derivado à alta temperatura que se fazia sentir na zona dos Dembos. Depois rumei até ao bar do soldado e logo que ali cheguei apareceu à minha frente uma Cuca, um casqueiro e chourição. Era assim que nos recebiam os nossos camaradas. Noutras alturas fazíamos nós a eles. A vida era isto. Só sabe dar valor a estes pormenores quem passou por eles. É que no regresso de cada reconhecimento parece que voltávamos a nascer.             

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Humor fim-de-semana:

Era uma vez um rei que queria pescar.
Ele chamou o seu meteorologista e pediu-lhe a previsão do tempo para as próximas horas.
Este lhe assegurou que não iria chover.
A noiva do monarca vivia perto de onde ele iria e colocou sua roupa mais elegante para acompanhá-lo.
No caminho, ele encontrou um camponês montando seu burro que viu o rei e disse: "Majestade, é melhor o senhor regressar ao palácio porque vai chover muito".
O rei ficou pensativo e respondeu:
"Eu tenho um meteorologista, muito bem pago, que me disse o contrário. Vou seguir em frente".
E assim fez. Choveu torrencialmente.
O rei ficou encharcado e a noiva riu-se dele ao vê-lo naquele estado.
Furioso, o rei voltou para o palácio e despediu o meteorologista.
Em seguida, convocou o camponês e ofereceu-lhe emprego.
O camponês disse: "Senhor, eu não entendo nada disso. Mas, se as orelhas do meu burro ficam caídas, significa que vai chover".
Então, o rei contratou o burro.
E assim começou o costume de contratar burros para trabalhar junto ao Poder...
Desde então, eis a razão de burros ocuparem as posições mais bem pagas em qualquer governo.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Nacos de vida. Poesia de Rodela:

Homenagem ao poeta

Os teus versos são feitos d´oiro fino,
Aleixo, bordam abas d´almas puras
nascidas das mais simples criaturas
tantas vezes, sem roupa, nem destino.

O povo canta contigo e não cansa
não há entre ele e tu qualquer segredo,
inocentes gargantas que tão cedo
organizaste, um dia, esta aliança.

A riqueza que tens em cada quadra
levou-te quantas vezes para a esquadra,
entre dois braços rudes e grosseiros.

Insensíveis à dor dos outros lares
Xanana dos poetas populares,
os homens como tu são verdadeiros!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O camaleão:

Hoje não era para publicar nenhum texto no meu blogue. Não é por falta de temas mas sim por decoro. Quando digo decoro quero dizer por respeito aos muitos que me lêem. Porque vontade não me falta de maltratar seres sem coluna vertebral. Ainda ontem um “ilustre” economista que tinha sido eleito para Presidente da Assembleia Municipal do Porto na lista Rui Moreira, Presidente da Câmara do Porto, desistiu e alegou motivos pessoais. Mas só o fez depois de Rui Moreia ter criticado os subsídios que são dados a Lisboa em detrimento do Porto. E quem devia ser: .  
Pois é a ele que me refiro. Pôs logo o seu lugar à disposição de Rui Moreira. Mais tarde veio-se a saber que já tinha aceitado um lugar oferecido pelo governo. É com situações destas que o povo, o verdadeiro povo, deixa de acreditar na democracia. Mas também é com atitudes destas que seres como Daniel Bessa se interessam. Pois reinam melhor na confusão e tudo fazem para voltarmos ao antigamente. Só se interessam com o seu bem-estar e por isso vão engordando à custa do Zé-povinho. Pena que um dia todos os males que existem neste mundo lhes caia em cima da cabeça. Por mim ficava felicíssimo. 
É que estes saltimbancos parecem macacos a saltar de galho para galho. Ou fazem-me lembrar os Camaleões que mudam de cor conforme a ocasião. E nada melhor que alcunhar Daniel Bessa como o Camaleão da política.      

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Coisas que gostaria de ser eu a escrever:

Intróito

Como é habitual todos os dias dou uma vista de olhos pelos blogues da minha estimação. Hoje no “Crónicas do Rochedo” deparei com um texto que muito gostaria de escrever se tivesse competência para isso. Ali está descrito tudo o que um jovem nos anos sessenta e sessenta do outro século passou ou ambicionou. O antes querer saber do ter. O confiar que assinou contractos com gente séria. Que o Estado em toda a sua vivência era gente de bem. Que para os desígnios da Nação só ia gente responsável e só pensava no bem dos seus súbitos.
Tudo isto para mim se desvaneceu. Uma vida inteira a acreditar que pessoas que se candidatam para o serviço público eram dotadas de virtudes e afinal não passam de marginais. Dizem que tudo neste mundo é pago. Espero que esta seita de mentirosos e usurpadores paguem com língua de palmo. Mas isto é eu a pensar. Porque não há justiça neste meu Portugal.    

Açoitem-me!

"O meu pai educou-me para ser feliz e não para ser rico. É uma dívida de gratidão que tenho para com ele. A educação que me deu não me permitiu acumular uma conta bancária choruda, mas deu-me a hipótese de criar o meu próprio banco. Um banco onde não se pagam juros, mas se aforram recordações. É um banco de imagens e de memórias dos 98 países que visitei, dos sete onde vivi tempo suficiente para criar raízes.
É certo que o meu pai nunca me disse que deveria aforrar para a velhice. (Tal como eu, devia confiar nas promessas dos governos e nunca lhe terá passado pela cabeça que, no dia de receber a reforma nos termos acordados com o Estado há 41 anos, viesse um grupo de ladrões, democraticamente eleitos para governar o país, dizer " Não pagamos!"). Se alguma vez mo tivesse dito, o mais provável é que eu nunca tivesse ousado fazer da minha vida uma aventura para ser feliz. Talvez tivesse uma conta bancária choruda, mas não tinha o meu banco de imagens tão enriquecido de memórias inolvidáveis, que nenhum dinheiro pode pagar. O meu pai não me avisou para ser prudente e me precaver para a velhice. (Nem precisava, porque a morte prematura de três dos meus irmãos fez-me perceber melhor a transitoriedade da vida e ensinou-me a relativizar a importância dos bens materiais). Apenas me disse que o mais importante na vida é ser feliz. Estou-lhe grato por isso.
Hoje, infelizmente, muitos jovens - quiçá a maioria - não poderão dizer o mesmo. Vivem para acumular dinheiro e olham para os mais velhos como um empecilho descartável. Uma herançazita vinha mesmo a calhar, mas o velho nunca mais morre... Os velhos deixaram de ser fonte inspiradora para os jovens, exemplo de sabedoria, passaram a ser vistos como um entrave ao progresso.
Claro que isto não tem nada a ver com um sistema educativo que despreza a solidariedade e promove o individualismo, nem com a formação adquirida nas Jotas partidárias, nem com a desestruturação familiar e, muito menos, com a ascensão do jovem ao centro nuclear da família outrora ocupado pelo "pater familiae". Tampouco tem a ver com a inversão da pirâmide da sabedoria. A minha geração olhava para os pais e avós e via neles exemplos de saber; os jovens de hoje são a sabedoria. Olham para os pais e avós com condescendência - às vezes até com carinho - mas no íntimo pensam. Coitados! Estão velhos... não se adaptaram  à vida moderna. Vivem no mundo deles e não percebem nada do que se passa cá fora!
No meu tempo, os jovens olhavam para os pais como um exemplo a seguir. Agora, são os pais que devem seguir o exemplo dos filhos, para não serem vistos como botas de elástico ou caretas.
Talvez os jovens de hoje sejam mais felizes do que eu mas, muitos deles, nunca conhecerão o prazer de comprar um carro, uma casa, ou fazer uma viagem de sonho com dinheiro ganho à custa do seu trabalho, porque desde cedo se habituaram a explorar a separação dos pais para os chantagearem  com exigências, que trocam por afectos plastificados de circunstância.
Nunca perceberão o prazer de uma conquista, porque nasceram e cresceram habituados a exigir.
Nunca conhecerão o significado da palavra Liberdade porque, desde cedo, na Universidade, nas Jotas, nos locais de trabalho, lhes ensinaram que vergar a espinha perante o superior, é o caminho para o sucesso.
Quando estes jovens forem velhos, talvez sejam - como eu - surpreendidos pela evolução dos tempos. A diferença é que, muito provavelmente, a maioria não terá o prazer de sentir uma dívida de gratidão pela educação que receberam."

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O aniversariante:

Quando era pequeno estava sempre desejoso de fazer anos. Compreendia que só se podia fazer uma vez no ano. Mas o que querem! Queria fazer mais que uma vez. Não era pelas prendas que recebia. Nessa altura não havia bugigangas como hoje há. Era pelo facto que nesse dia recebia como prenda uma malga de café e um trigo de quatro cantos. Que pitéu! Estava habituado a todos os dias me deslocar à Cantina Escolar para ali tomar uma malga de leite pó, malga essa, que levava de casa assim como a broa esfarelada e um pouco de açúcar. Portanto o chamar de pitéu à malga de café e ao trigo de quatro cantos. 
Tempos de miséria. Não dávamos por isso porque a regra era geral. Só mais tarde é que nos apercebemos. As condições socioeconómicas começaram a melhorar. À mesa de qualquer casa já entrava outros artigos alimentícios. Os ordenados eram melhores.
Depois com o vinte e cinco de Abril as coisas ainda melhoraram mais. Os aniversariantes começaram a receber melhores prendas. A malga de café com o trigo de quatro cantos já não fazia parte dos aniversários dos mais pobres como eu. Agora eram bugigangas e mais bugigangas. Só que tudo tem um princípio e um fim. E como nos crimes em que o criminoso volta sempre ao local do crime também a pobreza está a voltar aos lares dos portugueses.
Receio que a partir de agora nem uma malga de café e um trigo de quatro cantos volte a entrar na casa dos mais necessitados em dia de aniversário. Por isso a minha não alegria por mais um aniversário. Outrora sentia uma alegria imensa. Tinha pressa em me tornar adulto e mais tarde homem. Depois veio a fase em que não me importava de ficar sempre na mesma idade ou que me tirassem alguns anos. Quem não pensa assim como eu? O homem torna-se num animal insatisfeito.
Até dou de conselho que o governo nos devia roubar anos. Assim como nos rouba noutras regalias conquistadas com muito suor porque não nos roubar nos anos? Não o faz porque os anos não rendem euros!