terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Coisas que nos estão a acontecer:


Este vídeo mostra o que está a acontecer ao Mundo principalmente aos países do Sul da Europa. Enquanto o dinheiro cai em cima dos que mais têm uma grande parte não sabe o que vai ser o seu futuro. O egoísmo está a levar as nações para a que melhor se pode desenrascar. Não compreendem que não podem empobrecer umas quantas sem que um dia lhes possa acontecer o mesmo. 
A mola real de um país é a indústria. Se ela não existir não há desenvolvimento e não há finanças que resistam a tal descalabro. Mas há quem julgue que empobrecendo a classe média consegue resolver os problemas do país. Por isso cortam tudo a quem podia contribuir para a economia do país: salários, subsídios, impostos, transportes e aumento dos bens essenciais. Parece uma bola de neve. Que conforme passa vai enrolando cada vez mais tornando-se uma bola de grandes proporções. É o que está a acontecer a Portugal.

Depois vem o trecho de Bertold Brecht que continua actualíssimo:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Natal:


Estamos a aproximar-nos do Natal e não vejo o entusiasmo de outros anos. A maioria dos portugueses está com receio de escrever de falar e de o enfrentar. Antes, por esta altura, andava tudo numa fona à procura de pinheiros, musgo e outros artefactos para construir a árvore de natal e o presépio. Hoje pouco se vê. Também as nossas crianças não pedem prendas como era costume porque parecem que compreendem a crise do País. Não admira.
Quando são confrontados com fome, muitos, outros não têm coragem para almejar em receber prendas valiosas. Este País está a ser governado por gente que não sabe o que é a solidariedade e prefere a caridade para ter os seus pobres. Roubaram-nos o melhor que existe no Mundo: a esperança.

Comparo este natal aos dos anos cinquenta e sessenta do século passado. Vejo a maioria dos pais de hoje com a mesma dificuldade dos meus. O sacrifício e a dificuldade que tinham em nos explicar, a mim e aos meus irmãos, por que era diferente o nosso natal do dos filhos dos mais remediados, há pouco tempo, “classe média”.
De manhã lá íamos sorrateiramente ver o que o menino Jesus nos ofertava. Às vezes ia com medo de não ser contemplado porque a minha mãe dizia que se não tivesse bom comportamento ia ser penalizado. O meu comportamento não era um exemplo, pelo contrário, e doía-me a barriga enquanto não via no meu sapato, em mau uso, as prendas.
Quando via que as prendas eram há base de uns pequenos chocolates, rebuçados, pinhões e uma sandes de marmelada ficava contente porque raras vezes desfrutava destas iguarias. Com o passar dos anos apercebi-me que eram os meus pais que as compravam. Fiquei desiludido mas compreendia o esforço deles.
Como antigamente estão a roubar os sonhos das nossas crianças. Há tempos o Papa Bento XVI num livro que escreveu disse que a vaca e o jumento não fazem parte do presépio. Quem como eu que sempre viu esses animais a dar calor com o seu bafo ao menino Jesus fica incrédulo com tais afirmações. Este rouba-nos os animais e Passos Coelho quer-nos roubar tudo: subsídio de férias e natal e a partir de ontem quer-nos roubar a reforma. Por isso não me admira que depois nos caia a catástrofe que a seguir é relatada.
 “Este ano não vai haver presépio! Lamentamos, mas:
- A vaca está louca e já não se segura nas patas.
- Os Reis Magos não podem vir porque os camelos estão no governo.
- No rebanho de ovelhas grassa a língua azul.
- O burro está na escola a dar aulas de substituição.
- N. Senhora e S. José foram meter os papéis para o rendimento mínimo garantido.
- A ASAE encerrou o estábulo por falta de condições higiénicas.
- Uma tenda era a solução alternativa, mas o Kadafi levou-a.
- O tribunal de menores de Coimbra ordenou a entrega do Menino Jesus ao pai biológico.
- O Pai Natal também não pode vir porque o trenó foi apanhado numa operação stop e ficou sem transporte.
Nota: Esta foi a solução encontrada pelo governo, mas as crianças não gostaram e os adultos odiaram.

O de cima diz bem do de baixo:


Ao ver que não o ia conseguir domesticar, Lisboa recebeu-o com pedras. A campanha suja contra o bastonário eleito pelos advogados da província decorreu com o profissionalismo que Fernando Gomes testemunhou quando teve a fraqueza de trocar o lugar de melhor presidente da Câmara que o Porto teve por um gabinete subalterno na esquina do Terreiro do Paço, onde Manuel Buíça feriu de morte a Monarquia.
A campanha falhou no que estava programado ser o ato final da lapidação, o tribunal da TVI onde a tonta Moura Guedes teve a imprudência de chamar bufo a um homem que após ter sido preso pela Pide, em Coimbra, aguentou como um herói as humilhações, os três dias e três noites de interrogatórios e os 34 dias no isolamento, em Caxias.
O arraso que o bastonário deu à apresentadora televisiva, que por ter a boca maior que o cérebro está sempre a tentar dar passadas maiores que a perna, é um dos meus vídeos favoritos (a par do dos golos do 5-0 que o meu Porto deu ao Benfica do Marinho), que de vez em quando revisito no YouTube. É um espetáculo de cidadania.
Tenho muito orgulho em ser amigo do Marinho, de quem fui colega durante quase 20 anos, na Redação do "Expresso", quando ele usava o nome António Marinho.
Um das coisas que mais admiro nele é que ao longo das suas sucessivas reencarnações - universitário revoltado com a ditadura, professor, advogado, jornalista e bastonário - nunca teve medo de dizer o que pensa em voz alta e de pertencer aquele raro grupo de pessoas que quando lhe fazem uma pergunta a sua resposta não tem por objetivo agradar a quem a fez.
Com o Marinho e Pinto, bastonário reeleito por maioria absoluta e com a maior votação de sempre, estive apenas umas duas ou três vezes, a última das quais, há quase dois anos, terminou à mesa, à volta de um leitão, no Albatroz.
Mas, para além de coabitarmos uma vez por mês esta página do nosso JN, vou acompanhando e aplaudindo à distância o seu combate por uma justiça mais barata, contra a soberba dos juízes, que se julgam donos dos tribunais, e um Parlamento que se tornou numa central de tráfico de influências, onde os deputados podem ter clientes com interesses nas leis que eles fazem.
Gostei da frontalidade com que avisou os estudantes para fugirem dos cursos de Direito, evitando assim que a massificação acentue a proletarização e degradação da classe. E assino por baixo quando ele, de sobrolho carregado, denuncia uma Justiça injusta, cheia de silêncios e mentiras, que se curva perante os ricos e poderosos - e maltrata os pobres e desprotegidos.
Mas o que mais tenho a agradecer ao meu amigo Marinho é ter desmentido a fatalidade dos provincianos, como nós, se deixarem corromper pelo luxo e prazer - o cheiro a canela... - de Lisboa, tão bem caricaturado por Camilo, em "A queda de um anjo", na pessoa do deslumbrado fidalgo minhoto Calisto Elói.
Jorge Fiel no JN de hoje

Ministério da Justiça condenado:


O Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto condenou o Ministério da Justiça a pagar a uma procuradora dos Juízos Cíveis do Porto a remuneração mensal devida a título de acumulação de funções desde 2003 até 2010.
A decisão, subscrita por três juízes daquele tribunal, foi proferida no dia 3 deste mês e nada teria de anormal não fosse a circunstância de a magistrada em causa ser a mulher do antigo ministro da Justiça, Alberto Martins e de a questão ter sido alvo de controvérsia pública após a demissão, em 2010, do antigo secretário de Estado da Justiça, João Correia. Na verdade, na sequência dessa demissão, alguns órgãos de informação (com destaque para o diário "Correio da Manhã" e o semanário "Sol") lançaram sobre Alberto Martins suspeitas de favorecimento da mulher. Mas vejamos, então, os factos.
A magistrada em causa, Maria da Conceição Fernandes, exercia funções de procuradora-adjunta no 2.º Juízo Cível do Porto desde 15 de setembro de 2000. Nesse tribunal havia (e há) quatro juízos, cada um com três secções. Em cada um dos juízos estava colocado um procurador-adjunto. Três anos mais tarde, em 15 de setembro de 2003, em face da transferência para outro tribunal do procurador titular do 1.º juízo, a hierarquia do MP determinou que todo o serviço deste juízo ficasse a cargo dos outros três procuradores, entre os quais Maria da Conceição Fernandes. Essa possibilidade está prevista no artigo 63.º, n.º 4 do Estatuto do MP, estabelecendo o n.º 6 desse artigo que os procuradores que acumulem funções por período superior a 30 dias têm direito a uma remuneração a fixar pelo Ministério da Justiça, entre os limites de um quinto e a totalidade do vencimento.
Em 8 de outubro de 2007, Maria da Conceição Fernandes requereu ao Ministério da Justiça que lhe fosse atribuída a retribuição suplementar pela acumulação de serviço. Cinco meses mais tarde, o seu direto superior hierárquico emite um parecer negativo, considerando que o trabalho desenvolvido pela requerente não se afastava do que em média era exigido a um magistrado do MP em exercício de funções e que o grau de dificuldade naqueles juízos "não apresenta grandes questões de natureza jurídica" (sic). Em 14 de abril de 2008, o vice-procurador-geral da República, "em face das informações da hierarquia", indeferiu o pedido, posição que reiterou em novo despacho de 11 de maio seguinte. Em 21 de outubro de 2009, o Ministério da Justiça pronuncia-se, finalmente, sobre o requerimento através de um despacho do secretário de Estado Adjunto e da Justiça em que, invocando o parecer negativo da PGR, negou a atribuição do suplemento remuneratório pedido, considerando "não se encontrarem reunidos os pressupostos de uma acumulação de funções". Maria da Conceição Fernandes recorreu, então, ao tribunal, propondo a competente ação administrativa em 22 de fevereiro de 2010.
Entretanto, Alberto Martins e João Correia tomam posse, respetivamente, como ministro da Justiça e como secretário de Estado da Justiça, tendo este último proferido, em 7 de junho de 2010, um despacho autorizando o pagamento do mínimo legalmente previsto para a acumulação de serviço em causa. João Correia tinha sido advogado do sindicato do MP e nessa qualidade defendera com êxito essa pretensão em tribunal em nome de outros procuradores. No final desse ano, porém, o secretário de Estado demite-se e pouco tempo depois o assunto aparece na Comunicação Social que acusa Alberto Martins de favorecer a mulher. Em 29 de março de 2011, Alberto Martins revoga o despacho de João Correia e algum tempo depois a sua mulher prossegue com a ação judicial que agora lhe deu toda a razão.
Apenas duas notas, já que os factos falam por si. A primeira para salientar como se decide na hierarquia do Estado. Basta alguém proferir uma decisão, por mais medíocre que seja, para que depois todos os hierarcas a invoquem acriticamente.
A segunda nota é para salientar o nível a que desceu a luta política e certo jornalismo em Portugal. Um secretário de Estado demite-se e, vingativamente, tenta responsabilizar o ministro por uma decisão que era exclusivamente sua. Tudo sem que a Comunicação Social discernisse o que estava em causa.
No JN de hoje

domingo, 16 de dezembro de 2012

O que é a vida!


Hoje às nove horas fui tomar parte de um cortejo fúnebre de uma senhora de oitenta e sete anos de idade. Chegados à igreja o padre fez as exéquias fúnebres e na homilia referiu-se a o que “é a vida”. Lembrou que se não há vida Eterna o que andamos a fazer neste mundo enquanto vivemos! 
Enquanto nos explicava o significado da vida deu-me para meditar o que realmente andamos cá a fazer. Podemos viver vinte ou oitenta anos mas se algo não nos prende a essa mesma vida passamos a ser animais irracionais. 
Se não houver algo mais para além da vida ela não tem significado nenhum. É o que mais do melhor pode desfrutar dela: dos prazeres mundanos, do olhar só para o seu umbigo, do desprezo pelo próximo e não acreditar no juízo final. No Terreno já poucos se importam porque podem contornar a justiça do homem. 
Por isso, embora cristão não praticante, acredito, que há algo que nos rege. Se assim não fosse éramos animais irracionais. Comíamos uns aos outros. A pouca ou muita racionalidade leva-nos a não sermos canibais. Mas há outra forma de sermos predadores. É não olharmos à nossa volta e ver o que se passa neste nosso Portugal: gente com tudo e gente sem nada.
Nunca Portugal foi tão egoísta como neste ano e meio. Gente que se aproveita de tudo para ter uma vida faustosa sem se preocuparem com os pobres e humildes. Gente que jurou defendê-los. Pondo a mão em cima da Constituição da República em sinal de juramento e passadas horas se esquecem dessas mesmas promessas. 
Outros que quando foram ordenados juraram estar ao dispor de Deus e nunca ao lado do egoísmo da avareza e luxúria e não critiquem nas suas homilias tais actos. A mão que foi exposta em cima da Constituição ou Bíblia devia ser decepada. 
Há muitos que estão de braço dado com este tipo de gente. Não se lembram o que Cristo fez com os vendilhões do Templo.
Há alguns padres e bispos que se opõem a este tipo de vida mas são logo censurados pela maioria da Igreja Católica. Depois há quem se admire por uma parte de portugueses dizerem que são cristãos mas não praticantes. 
Cristo dizia que quando num cesto há uma maçã podre deve ser retirada para não apodrecer as restantes. Por isso custa-me ver certos governantes a assistir a uma missa e darem um aspecto de cristãos quando tudo faz para desproteger os pobres e humildes e não sejam criticados.
Se a vida é só a Terrena estes figurões passarão sobre ela cantando e rindo. Estou convencido que não é assim. Havemos de prestar contas a alguém. E, julgo que o dinheiro não vai servir para comprar votos ou sentenças como acontece neste mundo.
Por isso me convenço mais que a vida tem mais significado se for pensada e vivida conforme a Divina. Para depois não perguntarmos “o que é a vida”.    

sábado, 15 de dezembro de 2012

Nações Unidas propõem renegociação da dívida portuguesa:

"Uma equipa de sete economistas do PNUD, coordenada pelo português Artur Baptista da Silva, apresenta três pontos para uma negociação com a troika da dívida portuguesa. O ganho rondaria 10,3 mil milhões. A entrevista e a proposta podem ser lidas na edição de hoje do Expresso.
"Se Portugal não o fizer já, terá de o fazer daqui a seis meses, de joelhos", afirma Artur Baptista da Silva, o economista português que coordena uma equipa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), encarregada pelo secretário-geral Ban Ki-moon de apresentar um relatório da situação crítica na Europa do Sul.
Em entrevista na edição de hoje do Expresso, Baptista da Silva refere a preocupação das Nações Unidas com a evolução da crise das dívidas soberanas na "periferia" da zona euro, as receitas de ajustamento que têm sido colocadas em prática e os riscos geopolíticos que esta situação acarreta.
Numa abordagem distinta de outras propostas de renegociação da dívida - como a de Miguel Cadilhe, divulgada pelo Expresso em outubro num artigo de opinião do ex-ministro das Finanças -, a estratégia definida por esta equipa da ONU propõe uma renegociação de 41% da dívida soberana consolidada portuguesa projetada daqui a cinco anos (uma parte da dívida que não deriva das políticas internas dos diversos governos desde a adesão à União Europeia) e a mexida em dois pontos do memorando de entendimento com a troika, que em detalhe o leitor poderá ler na entrevista publicada na edição do Expresso.
Artur Baptista da Silva será encarregado pela ONU para dirigir o Observatório Económico e Social das Nações Unidas que se instalará em Portugal por dois anos. O relatório será divulgado no próximo ano.
A poupança de 10,3 mil milhões de euros daria para cobrir um défice orçamental de 4,5% e ainda deixaria de saldo cerca de 2,3 mil milhões de euros, que poderiam ser aplicados à devolução de um dos subsídios retirados aos funcionários públicos e aos pensionistas e ao reforço do fundo de emergência social."
Anabela Campos e Jorge Nascimento Rodrigues (expresso)
8:17 Sábado, 15 de dezembro de 2012

Cavaco diz que é preciso "não perder a esperança":


O quanto é bom ter frases destas. Ainda não há muito tempo se escandalizava e retorquia nos órgãos de comunicação social que estavam a entrar no bolso dele. Dizia com grande descaramento que não conseguia viver com tão pouca reforma. E, a isso juntava a da esposa. Há pessoas que não têm um mínimo de dignidade. Quando um País, no caso Portugal, está a ferro e fogo, vem o que me mais contribuiu para esta nossa desgraça pedir-nos para não perder a esperança.
Deus tenha piedade de nós e dê a este cavalheiro um Natal igual à maioria dos Portugueses. Que a árvore de Natal que tem em Belém em lugar de ser um pinheiro que seja um eucalipto. E, que este ao secar, como é norma dos eucaliptos, que seque quem se encontre à sua volta. Que os grupos das janeiras ensaiem trechos que lhe faça ver o que é ter esperança.
Que não sejam só palavras saídas da boca para fora como é timbre em Cavaco Silva. Elas têm de ser sentidas e para isso proponho-lhe que se disfarce e na véspera de Natal dê uma volta pelos bairros mais pobres de Lisboa para ter uma noção da realidade do País que dirige e transformou. Se depois de isso voltar a dizer que é preciso ter esperança, não tomar outras soluções, aconselho-o a uma consulta de psiquiatria ou que os grupos das "janeiras" lhe cantem este poema.

 "A morte do camponês"

Sentindo o camponês a morte já no peito
os filhos reuniu em volta do seu leito
e em tom grave lhes diz: Meus filhos vou morrer…
Os anos que vivi, vivi-os sem viver,
pois desde que nasci que outra coisa não faço
do que amanhar a terra e ao esforço do meu braço
qual a compensação?... se pela vida fora
só canseiras ganhei, as que vos deixo agora!

Sabeis o que é a vida? Eu sei que não sabeis…
Porque a vida não é isto que vós viveis.
Fiz de vós cavadores, honrados e leais,
também fui cavador e o foram já meus pais.
Vós que nunca saístes aqui da nossa terra
ignorais o que há p’ra além daquela serra!
Existe um mundo imenso onde vai lado a lado
o que é bom e o que é mau pois é de braço dado
que a luz e a escuridão, a vileza e a bondade,
o honrado e o ladrão, a mentira e a verdade,
e que muito produz e aquele que explora,
unidos como um só vão pela vida fora,
mas quem se verga e sofre a mais cruenta lida
é quem semeia o pão que é quem não vive a vida!

Mal desponta a manhã e já lá vai a gente
a terra revolver lançando-lhe semente,
sob o frio e o calor e com canseira tanta,
num desumano afã… quanta amargura, quanta?
E tudo para quê? Se não foge à pobreza
enquanto que o patrão multiplica a riqueza
pois quem nada produz é quem tudo amealha
e olha como um cão aquele que trabalha
e o pobre cavador sem reforma, sem nada…
Ou morre a trabalhar ao peso da enxada
ou quando mais não possa, irá, que triste sorte!
Esmolar de porta em porta e encontrará a morte
na valeta da estrada onde apodrece o pó!
e quem o explorou não tem remorso ou dó
porque já tem no peito a alma corrompida!
Isto é verdade meus filhos e isto não é vida.

Mas mesmo para além da Serra que ali está
p’ro pobre que trabalha a existência é má…
Muitos pedem trabalho e como não lhe o dão
têm que mendigar porque não tem pão!
De um homem para o outro a vida se contrasta,
a terra é p’ra uns mãe e p´ra outros madrasta!
Uns esbanjam na orgia o dinheiro à mão cheia
e outros que nada tem vão-se deitar sem ceia!
Enquanto um deita fora aquilo que não come,
outro que não tem pão agoniza de fome!
E a corrupção que grassa pelo mundo
faz desta vida bela um chavascal imundo!
Gente que mata até por ódio e por cobiça
e a força espezinhando a razão e a justiça!
Órfãos de pai e mãe chorando os seus pesares,
mulheres de pouca sorte enchendo os lupanares,
mães solteiras sem lar, velhinhos sem guarida…
Tudo isto existe sim, mas não é isto a vida!

O mundo é vasto e bom, fecundo e tem beleza,
a sua vastidão é a maior riqueza
e o pão que a terra dá dividido por todos
chegava a toda a gente e sobraria a rodos…
Porém esta riqueza está mal dividida
e a terra, bem comum, por uns quantos repartida
tem vastas vedações de muros e valados,
uns herdam quase o mundo, outros são deserdados,
são poucos que produzem e muitos os que comem
e a exploração do homem pela homem
gera a ira, a revolta e todo o mal da terra
por isso o mundo vive em permanente guerra!
Que belo não será este mundo que amamos
quando um dia afinal não existirem amos!
Assim se faz do homem a fera fratícida…
O mundo é isto sim, não é isto a vida!

Por vezes me quedei, quando nascia o Sol
e ia de enxada ao ombro em busca de trabalho,
a fitar encantado as pérolas de orvalho
que às pétalas oferece à tarde o arrebol,
a campina em flor tão linda a despertar,
a água no regato alegre a murmurar…
Num êxtase escutava a doce sinfonia
dum alado a saudar o dealbar do dia.
Corria p’los trigais prenhes de trigo loiro,
 como se o campo fosse um vasto manto de oiro
e à tarde ao regressar enfim a nossa casa
fitando o pôr-do-sol, como uma enorme brasa,
que aos poucos se apagava ao longe no poente,
eu de novo vivia, eu voltava a ser gente…
Sentia então em mim a revolta incontida
porque o nosso viver é tudo menos vida!

Porém o mundo é vosso e está na vossa mão,
uni-vos como um só e filhos tereis pão!
Encerrai as prisões e abri muitas escolas,
a luz também é pão e acabam-se as esmolas.
Aos amos esteriões dai-lhes feroz batalha,
que a terra sempre foi e é de quem a trabalha,
num mundo sem patrões não há exploração,
dividindo-se os bens acaba-se a ambição,
fazei um mundo igual e acabarão as guerras
e fecundem depois os campos e as serras,
porque o progresso está no ventre das campinas,
nas fábricas, nos mares, nos campos e nas minas…
Depois filhos vereis toda a beleza infinda!
Do pão, da liberdade e desta vida linda!
E a voz do camponês, já muito enfraquecida,
a morrer ainda diz… - Sim… Isto é que é a vida!

Dezembro de 1952
Poemas da madrugada
José Rosa Figueiredo