terça-feira, 4 de outubro de 2016

A mala que levei e trouxe da Guerra ultramarina:

Era de madeira e envernizada. Na fábrica em que trabalhava (António Pereira da Costa) quando um dos seus operários ia assentar praça os administradores ofereciam uma mala. Evidentemente que fiquei agradecido por tal acto.

Essa mala também partiu comigo para Angola. Coitada! Tal como eu, não fez mal a ninguém para ser para ali deportada. Mas como se costuma dizer: amigo que é amigo, neste caso amiga, não se abandona. Assim foi a minha fiel amiga. Era ela que durante vários meses me lembrava e unia-me à minha terra.

Tinha-lhe um carinho especial. Ali foi guardada a farda militar e alguma roupa civil: um par de calças, uma camisa, peúgas e um par de sapatos. Coisa pouca.

Nunca se fez rogada por receber mais uma camisa ou um par de calças que os meus pais me ofertavam pelos anos, Páscoa ou Natal. Nunca se queixava. Era pau, neste caso madeira, para toda a colher.

A sua estadia era debaixo do beliche. Ali se encontravam outras, mas nenhuma com a sua característica: de madeira e envernizada e com uma fechadura.

Pelo tempo fora ali foram guardadas cartas e aerogramas vindos da Metrópole: dos pais, irmãos, namorada e amigos. Madrinha de guerra nunca tive. Era um preguiçoso para escrever e ter uma madrinha de guerra obrigava-me a mais escrita.

Se na ida para Angola, poucas recordações levava, para cá vinha cheia delas. Se lhe desse vida - não fosse um ser morto – lembrava-se das alegrias e tristezas que nela eram guardadas. O medo que nos entranhava, as alegrias esporádicas, a conversa entre companheiros, de tudo se apercebia, mas nada revelava. Por isso era um ser morto.

Mas era a minha mala. Não de cartão. Era de madeira e envernizada.

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